CNBB pesquisa corrupção eleitoral
PUBLICAÇÃO
sábado, 23 de agosto de 1997
Agência Estado Rio de Janeiro 
Comprar o eleitor com remédios, alimentos ou camisetas é crime previsto pelo Código Eleitoral, mas nem parece. Quem conhece deputado ou vereador preso sob esta acusação? Devidamente incorporada pela cultura política brasileira, a corrupção eleitoral tem sido tema de reportagens e discursos de campanha, mas só agora atingiu o status de objeto de pesquisa. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) está realizando o primeiro mapeamento da compra de votos no País, tomando por base as eleições municipais do ano passado.
A pesquisa não é inédita apenas no assunto, mas também no formato. A coleta de dados está a cargo das paróquias, que distribuirão os questionários para serem discutidos e respondidos em grupo nas igrejas católicas de todo o Brasil. Os primeiros 500 formulários foram entregues no início do mês às 250 dioceses e, se tudo der certo, a CNBB terá em mãos seis mil questionários respondidos desde por missões na Amazônia até pelas politizadas comunidades dos grandes centros - uma amostragem que raramente consegue ser captada pelos institutos de pesquisa convencionais. Os resultados serão processados e analisados pelo Instituto Databrasil e o relatório final deve ficar pronto em meados de outubro.
A idéia de fazer o trabalho surgiu a partir da Campanha da Fraternidade do ano passado, que tinha como tema Fraternidade e Política. A Comissão Brasileira de Justiça e Paz, vinculada à CNBB, decidiu eleger tópicos da campanha para serem esmiuçados este ano - e acabou por fixar-se no item sobre corrupção nas eleições. É um ponto crucial na política brasileira, porque está totalmente disseminado e, desta forma, distorce os resultados das eleições, aponta o secretário-geral da comissão, Francisco Whitaker, que coordena o projeto.
Numa reunião no final do ano passado, a comissão concluiu que a prática da compra de votos compromete a democracia brasileira. Há ainda o efeito perverso de eleger políticos que querem manter o povo carente, porque só explorando a carência absoluta de dois terços do eleitorado é que os candidatos inescrupulosos ganham, diz Whitaker, que foi vereador em São Paulo pelo PT. Diante dessa conclusão, os integrantes da comissão decidiram realizar a pesquisa. A proposta foi aprovada pela assembléia-geral da CNBB, realizada no início do ano em Itaici.


