France PresseRelações públicasBill Clinton: para agradar as crianças da Mangueira, cortesia e tentativa, sem jeito, de tocar tamborimO presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton, reverteu todas as expectativas negativas provocadas pela sua equipe de segurança na visita de ontem à Vila Olímpica da Mangueira. Clinton teve acolhida calorosa e sua segurança foi mais branda. Os convidados puderam se aproximar do presidente, que abraçou e beijou várias crianças, jogou bola e tentou tocar tamborim. ‘‘Eu não sabia o que estava esperando, e adorei, adoro crianças’’, disse o presidente, no final da visita. ‘‘It’s wonderful (é maravilhoso).’
Em discurso de 20 minutos, o presidente defendeu a educação como o meio para superar a pobreza e as desigualdades sociais e elogiou o presidente Fernando Henrique Cardoso - ‘‘um professor, marido de professora e pai de professores’’ - por sua iniciativa de usar o dinheiro da privatização também para a educação, além do abatimento da dívida pública. ‘‘Com isso, o presidente mostra que a única dívida real que o Brasil tem é com suas crianças’’, afirmou.
Antes do discurso de Clinton, o ministro extraordinário dos Esportes, Édson Arantes do Nascimento, o Pelé, havia pedido de forma incisiva que os Estados Unidos, ‘‘o país mais rico do mundo’’, incentivasse outros projetos como o da Vila Olímpica da Mangueira, que atende a 4 mil crianças carentes com aulas de nove modalidades esportivas, oficinas de aprendizado profissionalizante, escola em horário integral, atendimento médico e atividades culturais.
Clinton respondeu a Pelé dizendo que o governo americano não vai parar ‘‘até que todas as crianças do Brasil e do continente americano tenham a oportunidade oferecida na Mangueira’’. O presidente foi muito aplaudido e saiu com um botton da escola de samba na lapela, presenteado pelo presidente da Mangueira, Elmo José dos Santos. ‘‘Ele disse que a escola era linda e que, a partir de hoje, é Mangueira’’, comemorou Santos. Ele e o coordenador da Vila Olímpica, Francisco de Carvalho, o Chiquinho, conversaram animadamente com Clinton no final da visita.
Foi um perfeito ato de relações públicas, que começou já no tratamento gentil dispensado aos 1.800 convidados pela segurança na revista obrigatória de bolsas e no uso do detetor de metais. O número oficial de integrantes do Serviço Secreto e FBI presentes à Vila Olímpica não foi revelado, mas policiais brasileiros calcularam em cerca de 100, mais 30 agentes da Polícia Federal. Outros 200 policiais militares patrulharam os arredores da vila e atiradores de elite ocuparam pontos estratégicos no morro, bem em frente à vila, e nos prédios vizinhos.
Clinton chegou pontualmente às 13h30, numa limusine, e foi para uma sala onde, em um computador, trocou mensagens via Internet com seis estudantes da Hilton High School, em Woodbridge, na Virgínia (EUA), ao lado de quatro estudantes do Ciep Nação Mangueirense, que funciona na Vila Olímpica. O gesto simbolizou o início do programa bilateral de incentivo à tecnologia na educação assinado anteontem por ele e o presidente Fernando Henrique Cardoso.
Em seguida, Clinton e a primeira-dama dos EUA, Hillary, foram para o palanque montado no campo de futebol da Vila Olímpica, acompanhados por Pelé, Santos e a estudante Flávia Peçanha, de 20 anos, escolhida para fazer o discurso de saudação da comunidade por ser a primeira aluna do Ciep Nação Mangueirense aprovada em uma universidade pública - ela cursa o 3º período de História na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
‘‘A Mangueira representa o melhor do Brasil’’, disse Flávia, em seu discurso preparado pela Xerox, empresa norte-americana que é a principal patrocinadora da Vila Olímpica. Em resposta, Clinton elogiou a estudante como ‘‘uma inspiração para a comunidade e para os jovens que lutam duro para aproveitar os dotes dados por Deus’’.
O calor de 40 graus não diminuiu o entusiasmo da maioria de crianças e adolescentes. Depois da parte solene da visita, Clinton e Pelé desceram do palanque e misturaram-se aos convidados. O presidente norte-americano apanhou camisetas e bonés oferecidos pelos jovens - uma etapa não-prevista na visita, que durou 15 minutos e quebrou o protocolo.
Cercado por meninos, meninas, jornalistas e caçadores de autógrafos, com a segurança apenas observando, Clinton encaminhou-se para o gol e, depois de arriscar um arremedo de troca de passes com Pelé, bateu um pênalti, gentilmente cedido pelo goleiro Bartolo Xavier, 19 anos, formado no campo da Vila e hoje no Vasco da Gama. Não podia faltar o samba - e o presidente teve uma aula rápida de tamborim ministrada pelo ritmista Jefferson Carlos da Silva Leite, 16 anos, da escola de samba mirim Mangueira do Amanhã.
Clinton não entendeu muito bem o funcionamento do exótico instrumento e, em vez de bater no couro, acabou tentando tirar som da lateral do tamborim. Suado, o rosto vermelho por conta do sol, o presidente deixou a vila após uma hora e 15 minutos de visita - 25 minutos a mais do que o previsto.

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