Os presidentes Fernando Henrique Cardoso e Bill Clinton avançaram nos entendimentos em relação à criação da Área de Livre Comércio das Américas (Alca), apesar de persistirem as divergências quanto à velocidade com que a integração deve evoluir. Em entrevista conjunta no Palácio da Alvorada, Clinton assegurou que a Alca não vai resultar no enfraquecimento da economia do Brasil ou do Mercosul. ‘‘Os Estados Unidos apóiam o Mercosul’’, afirmou. Em conversa pela manhã, os dois concordaram em lançar durante a cúpula americana de Santiago, em abril do próximo ano, as negociações para a formação da Alca.
‘‘É importante que o povo brasileiro compreenda que os Estados Unidos jamais iriam propor alguma coisa que pudesse minar o crescimento de qualquer outro país’’, disse Clinton. Tomando a iniciativa de abordar o assunto antes de responder a perguntas dos jornalistas, o presidente norte-americano disse que seria falso pedir que o Brasil escolhesse entre a Alca e o Mercosul. ‘‘A Alca tem que ser coerente com o Mercosul, com o Brasil e os interesses de outros países da região’’, afirmou. Para negociar a Alca, o governo americano ainda precisa de uma autorização especial do Congresso, o fast track.
Bill Clinton observou que os EUA estimulam os blocos regionais que mantêm abertos os canais de comércio e lembrou que as exportações americanas para o Mercosul vêm crescendo significativamente desde 1991. A criação da Alca foi um dos principais temas da conversa de meia hora que os dois presidentes tiveram pela manhã no Palácio do Planalto. Mas, apesar da concordância em relação aos objetivos gerais da integração, persistiram, no final do encontro, as diferenças entre os dois países a respeito da velocidade com que a Alca deve ser construída.
Fernando Henrique disse que ‘‘a integração econômica é um processo que interessa aos dois lados’’ e que não há contradição entre as posições do Brasil e dos EUA, mas ressalvou: ‘‘É só uma questão de tempo para que possamos preparar nossa economia’’. Passou a ser outro, porém, o tom com que a proposta da Alca é tratada pelo governo. Até agora, a diplomacia brasileira condicionava o início das negociações sobre redução de tarifas comerciais na reunião de Santiago a um acordo prévio sobre a estrutura, objetivos, sede e alcance das discussões, o que efetivamente ainda não ocorreu.
O presidente brasileiro disse também que os presidentes dos 34 países americanos (exceto Cuba) que vão participar da reunião de Santiago não tratarão apenas da Alca, mas de temas como educação, saúde e meio ambiente. ‘‘Não é só tarifa, mas um processo mais amplo de integração’’, disse ele. ‘‘Essa idéia tem que ter como pressuposto promover maior igualdade e a melhoria das condições de vida dos nossos povos.’
Na conversa com Clinton, Fernando Henrique queixou-se também das barreiras não tarifárias que os Estados Unidos impõem a produtos brasileiros como calçados, aço e suco de laranja, e ouviu do presidente americano a promessa de instruir seus assessores para resolver esses problemas o mais rapidamente possível. O presidente brasileiro assinalou que o País está acumulando com os EUA um déficit comercial que deve chegar perto dos US$ 5 bilhões neste ano, o que não é desejável.
‘‘Vamos ter de rever isso, pois o comércio não pode ser um jogo em que apenas um lado ganha’’, disse ele. Clinton admitiu, na entrevista, que o problema das barreiras ‘‘está se tornando uma questão irritante e prejudicial para as relações entre os dois países’’. Mas ponderou que ‘‘algumas questões são muito específicas e complexas’’.
Fernando Henrique disse ainda que, apesar de ter os Estados Unidos como maior parceiro econômico, o Brasil tem relações comerciais com o mundo todo. Frisou ainda ao presidente norte-americano que o Mercosul é um ponto importante da política externa brasileira. ‘‘É dentro desse entendimento que conversamos’’, explicou Fernando Henrique. Como já havia feito no discurso de boas vindas que fez a Clinton na segunda-feira à noite, o presidente insistiu na necessidade de evitar que a integração continental beneficie mais alguns países do que outros. ‘‘A prosperidade de uns deve ser a prosperidade de todos’’, disse.
Bill Clinton reafirmou que, pelas suas dimensões, Brasil e EUA ‘‘tem a responsabilidade de liderar as Américas na entrada do século XXI’’. Ele descartou a tese de alguns analistas como o ex-secretário de Estado Henry Kissinger que apontam preocupação dos Estados Unidos com o papel emergente de países como o Brasil no cenário mundial.
Ele disse que os EUA apóiam os países emergentes que passam a repartir responsabilidades em assuntos de interesse global, sempre que esses países estejam comprometidos com os ‘‘valores básicos’’ da política americana. Entre eles, relacionou, estão a democracia, a liberdade econômica, o respeito ao meio ambiente, o combate ao terrorismo e ao tráfico de drogas. ‘‘Se os países se empenham em favor disso, não são concorrentes nossos’’, disse.
Clinton afirmou também não ter restrições à aproximação entre o Mercosul e a União Européia (UE). ‘‘Os EUA estão preparados para competir, só desejam ter igualdade de condições’’, declarou. Ele lembrou que os EUA têm, em média, tarifas de importação mais baixas do que a União Européia.

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