‘‘Governo encastelado, como nosso querido sociólogo faz em Brasília, corre o risco de cair na demência’’
(De D. Mauro Morelli, bispo de Caxias, criticando Dona Ruth Cardoso e seu maridão)

Concorrência viciada
A Infraero promoveu uma concorrência sob medida para uma empresa de Brasília, a CTIS Informática. Porque em março revelou a armação, esta coluna está sendo processada pelo brigadeiro que preside a estatal.
O brigadeiro tinha lá seus motivos para tanto nervosismo: venceu a ‘‘concorrência’’ uma fundação de São José dos Campos (SP), Funcate, não por acaso dirigida por outro brigadeiro, que apresentou uma proposta risível, cujas falhas, abundantes, até pareciam propositais.
É claro que acabou desclassificada para que outra empresa fosse declarada vitoriosa. Quem adivinha a felizarda? Exatamente a CTIS.

Medo da caixa preta
A cruzada fisiológica do governador Almir Gabriel (PA) é outra.
Ele reclama da nomeação do presidente da Companhia Docas do Pará, Rogério Barzellay, indicado pelo PMDB do inimigo Jáder Barbalho, mas o que está por trás de sua reação (ele ameaça deixar o PSDB) é o risco de se abrir a caixa preta do Projeto Estação das Docas, no Porto de Belém.
Orçadas em R$ 5 milhões, as obras já consumiram mais de R$ 20 milhões e há suspeitas de irregularidades. Além disso, haverá concessão de espaços de lazer, restaurantes, bares etc e Gabriel, como Barbalho, querem distribuir os espaços entre os próprios apadrinhados.

Dose para cachorro
O Fundo Social de Emergência foi desmoralizado comprando goiabada para o Palácio do Planalto. Mudou de nome (Fundo de Estabilização Fiscal), mas seus recursos continuam sendo gastos de forma estranha.
A Academia da Força Aérea acaba de comprar (com recursos do FEF) vinte sacos de 20kg de ração para cães (adultos e filhotes). Em julho, nem aí para as consequências, a mesma AFA adquiriu ração para peixe.
O deputado Agnelo Queiroz (PcdoB-DF), atento ao desvio, conclui:
- O FSE da goiabada virou o FEF da ração.

FHC é nosso rei
Quem disse que televisão a cabo é mau negócio? FHC não pemitiria.
Na assembléia geral extraordinária convocada para o próximo dia 16, em sua sede, na Av. Afrânio de Melo Franco, 135, no Leblon, Rio de Janeiro, a direção da Globocabo vai comunicar aos associados Bradesco (10%) e Microsoft (10%) que o BNDES resolveu dar uma mãozinha, pagando R$ 200 milhões por 8,6% das suas ações.
Outros R$ 200 milhões serão aplicados em lançamento de debêntures.

Saudades da ditadura
Autor de mais medidas provisórias do que os decretos-lei produzidos na ditadura, FHC ressuscitou o instituto da ‘‘avocatória’’, inventado pelo general Ernesto Geisel e sepultado pela Constituição de 1988, que permite o governo determinar que um processo seja retirado das mãos de juiz de primeiro grau e vá à apreciação do Supremo Tribunal Federal.
Indignado, o presidente da OAB, Reginaldo de Castro, rompeu com FHC:
- Nós temos que nos unir aos partidos que combatem esse governo.

De olho no futuro
O acordo operacional entre o ‘‘Jornal do Brasil’’ e ‘‘O Dia’’, do Rio de Janeiro, coincide com a inauguração da nova Redação futurista deste último, dotada dos mais modernos recursos tecnológicos da atualidade.
A diretora de redação de ‘‘O Dia’’, Ruth de Aquino, também está antenada com as últimas e mais consistentes tendências do jornalismo: acaba de retornar de encontro que reuniu na Espanha os mais importantes diretores de Redação do planeta. Ela era a única mulher presente.

Procedimentos legais
Amparado numa pilha de documentos, que inclui o arquivamento de processo no Ministério Público de São Paulo, o reitor da Universidade Paulista, João Carlos Di Gênio, afirma que foram absolutamente legais os procedimentos da Unip na oferta do curso de Direito em Araraquara (SP). Ele contou que em julho passado até suspendeu o vestibular naquela cidade e também em Santos e São José dos Campos (SP), no Distrito Federal, em Goiânia (GO) e Manaus (AM), numa atitude de boa vontade e com prévio conhecimento da OAB paulista e nacional.

Recordar é viver
A incrível maracutaia dos bingos, que caminha célere para o esquecimento, foi criada pela chamada Lei Zico, no início da década.
A introdução dos bingos foi idéia e proposta do ex-deputado Oinareves Moura, ex-presidente da Federação Paranaense de Futebol.
Conterrâneo de Rafael Greca, o ministro dos bingos, Oinareves teve seu mandato cassado por corrupção.

A CPI do Eurico
Uma CPI já tentou desvendar a maracutaia dos bingos. Criada em 25 de maio de 95, acabou sete meses depois. Como tantas, deu em nada.
Pudera.
Foi presidida pela tucana Zulaiê Cobra (SP), mas seu relator era ninguém menos que o deputado Eurico Miranda (RJ).

FHC em bons lençóis
Deu no Sistema Integrado de Administração Financeira (Siafi) do governo: nesta terça, a presidência da República pagou R$ 7.500,00 à Sra. Maria do Amparo Rodrigues, provável bordadeira, por dez lençóis de casal e dez toalhas de rosto em algodão branco e bordado inglês e doze toalhas de mesa em cambraia de linho Braspérola.
Enxoval completo. E caro.

Simon faz campanha
O senador gaúcho Pedro Simon discorda do ex-chefe Itamar Franco, que prega o imediato rompimento do PMDB com o governo.
- Seria até impatriótico, poderia criar uma situação de ingovernabilidade.
Simon nega, mas está em campanha para presidente. Ele já visitou oito capitais, a pretexto de ‘‘debater com a sociedade’’, e ficou animado após o apoio que recebeu do PMDB de Santa Catarina, sábado passado.

Fama de traidor
Em Manaus, FHC já está sendo chamado de ‘‘traidor da Amazônia’’ pelas mesmas bocas que antes o apoiavam. No Norte, a revolta é geral.
O governador Amazonino Mendes (do PFL e cortejado pelo PPS) tem dito até que anda saudoso do regime militar. Não é para menos:
- A ditadura deu o que a democracia insiste em nos tirar: a Zona Franca.

Homo sapiens
E como é que traficante lava dinheiro?
Com sabão, claro. Em pó.

O PODER SEM PUDOR

A eloquência de Campos
O soberbo discurso de posse de Roberto Campos na Academia Brasileira de Letras deixou muita gente boa de queixo caído.
O economista Mário Berard é um deles. Era secretário da Fazenda em Alagoas, no início dos anos 70, quando assistiu Roberto Campos iniciar assim a sua intervenção, num seminário:
- Gilberto Amado dizia que o Roberto tem dois defeitos: primeiro, gosta de organizar o pensamento dos outros; segundo, não é eloquente.
A platéia sorriu e Campos continuou:
- Aceitei o primeiro defeito. Quanto ao segundo, depois que descobri que a eloquência é o incêndio da lógica, preferi ficar com a lógica.
Berard observa, quase trinta anos depois:
- No discurso da Academia, ele conseguiu neutralizar o ímpeto incendiário da eloquência e foi lógico e eloquente a um só tempo.

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