Brasília - Ao defenderem ontem o projeto do governo federal de transposição das águas do rio São Francisco, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ministro Ciro Gomes (Integração Nacional) atacaram ''ideologias'', ''bairrismos'' e ''paroquialismos'' que, segundo eles, estão envolvidos na discussão do tema. Segundo Ciro, a iniciativa do Comitê da Bacia de levar a discussão do projeto à Justiça significa ''a derrota da negociação, do diálogo e da conversa''.
Ontem, reportagem da Folha de S.Paulo mostrou que o projeto de transposição pode ser levado à Justiça antes mesmo de a obra obter licença ambiental para sair do papel. O comitê, responsável direto pela gestão do rio, alega que o governo atropelou um debate sobre o tema. A transposição, uma das prioridades do Governo Lula, tem seu custo total estimado em R$ 4,2 bilhões - dos quais R$ 1,073 bilhão previsto no Orçamento de 2005.
Lula foi o primeiro a falar sobre o tema, pela manhã, em discurso improvisado durante reunião do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, no Palácio do Planalto. O presidente disse que há um ''debate eminentemente ideológico'' acerca do projeto.
''Tem gente que é contra (a transposição do rio) sem saber porque é contra, tem gente que é favorável sem saber porque é favorável; tem gente que coloca isso num debate eminentemente ideológico, tem gente que coloca numa visão...Ou seja, as pessoas não se dão conta de que nós temos uma região onde moram milhões e milhões de brasileiros e brasileiras, que há 300 anos foram vítimas do governo da época, que detectou a seca e até agora não teve solução.''
Para o presidente da República, a transposição das águas do rio ''é uma revolução na região que vai produzir efeitos extraordinários daqui a cinco, seis ou dez anos''. ''Mas nós temos que fazer. Dom Pedro (2º), em 1847, achava que era preciso fazer a transposição, e até hoje nós ficamos discutindo como se a água do rio São Francisco tivesse dono, quando o dono, na verdade, é o povo brasileiro.''
À tarde, após a reunião do Conselho, Ciro falou à imprensa. Lamentou a manifestação de ''parte'' do Comitê da Bacia e exigiu que ele apresente os ''méritos'' que estariam contra os entendimentos com o governo federal.
''Recorrer à Justiça faz parte do Estado de direito democrático. Apenas é a derrota da negociação, do diálogo e da conversa. Todas as questões que eles (comitê) queriam ver adaptadas no projeto já foram aceitas pelo governo. De boa-fé, nós acompanhamos tudo. Todas as críticas, ponderações, dúvidas, todo o tempo que eles pediram'', afirmou o ministro.

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