James Alberti
De Curitiba
O depoimento da traficante Shirley Aparecida Pontes, de 33 anos, acusada de ser no Paraná um braço do traficante carioca Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar, à Comissão Especial de Investigação (CEI) da Assembléia Legislativa foi ‘‘um show de cinismo e mentiras’’, segundo parlamentares. O depoimento aberto ocorreu na Assembléia, das 15h25 às 16h50, quando começou uma sessão reservada, da qual a imprensa não pôde participar.
Shyrlei negou conhecer Beira-Mar e classificou de azar o fato de ter sido presa três vezes com cocaína, numa delas com cerca de 1 quilo. ‘‘O senhor vê que infelicidade. Que falta de sorte’’, disse irônica, em resposta a uma pergunta do deputado José Maria Ferreira (PSDB), integrante da CEI, que presta assistência à CPI do Narcotráfico da Câmara dos Deputados.
‘‘Nos meus 40 anos de jornalismo policial eu já entrevistei um monte de canalha, mas nenhum tão frio e calculista quanto ela’’, disparou o deputado Algaci Túlio (PTB), vice-presidente da CEI, após a conversa reservada. ‘‘Ela não abriu o jogo. É uma mula profissional, fria e acima de tudo cara-de-pau’’, acusou. Conforme o deputado petebista, reservadamente ela teria afirmado que não iria revelar nada porque temia pela própria vida e um possível sequestro da filha, que tem 10 anos.
Durante o depoimento aberto, Shirlei foi irônica, gesticulou, deu de dedo nos deputados e arrancou risos das pessoas que acompanhavam a sessão. Uma das contradições ocorreu quando ela disse que não sabia o que era ‘‘mula’’, nome dado para pessoas contratadas para transportar entorpecentes. Sem ser questionada, porém, ela afirmou: ‘‘Eu nunca fui usada como mula’’. Depois disse que não havia entendido a pergunta.
Shirley foi presa pela primeira vez no Mato Grosso, em abril de 1991. Acusada de tráfico, ela alegou que a droga que estavam em sua casa era de um namorado. A versão não foi aceita pela Justiça e ela foi condenada a sete anos de prisão. Grávida, teria sido liberada para ter o bebê em casa e, então, fugiu.
Presa novamente no ano passado, em Campo Mourão, a traficante foi trazida para Curitiba, de onde seria levada a Cacoal (MT), para cumprir sua pena. Transferida de Campo Mourão para Curitiba, para depois ser levado ao Mato Grosso, Shirley foi conduzida temporariamente para o 9º Distrito Policial. Lá ficou apenas três dias, sendo resgatada por um grupo fortemente armado. Depois da fuga cinematográfica, a traficante desapareceu. Ela foi presa pela terceira vez na segunda-feira da semana passada em Maringá. Na casa dela, agentes do Cope encontraram 1 quilo de cocaína. Novamente ela negou que a droga fosse sua.
A informação de que Shirley é ligada a Fernandinho Beira-Mar chegou ao Estado através da Polícia Civil do Rio de Janeiro. O delegado Mario Ramos, chefe do Centro de Operações Policiais Especiais (Cope), teria sido comunicado que homens de confiança do traficante carioca são os responsáveis pelo resgate de Shirley quando da sua prisão no 9º distrito. Beira-Mar é peça-chave e um dos homens mais procurados pela a CPI do Narcotráfico. Conforme levantamento da Polícia carioca, ele é responsável por 40% da droga distribuída no Rio de Janeiro.Mulher considerada braço direito de Beira-Mar no Paraná, presa com cocaína e já condenada, desafiou paciência da CEI das Drogas
Albari Rosa‘‘INFELICIDADE’’Shirley (de cabeça baixa) negou acusações, disse que nunca foi ‘‘mula’’ e que não conhece Beira-Mar

mockup