Rio - Em um documento sem assinatura elaborado para o presidente Emílio Médici, com o carimbo do Ministério das Relações Exteriores, mas provavelmente elaborado no Ministério da Justiça, em 8 de maio de 1972, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos é acusada de fazer denúncias sem provas e de adotar posições ''de cunho marcadamente político'' diante das notícias de tortura dos presos políticos. O documento diz ainda que as deliberações da comissão eram parciais e sugere ao presidente que o Itamaraty faça um comunicado de imprensa ''expressando que a comissão se afastou do estatuto'' e emitiu ''julgamento faccioso''.
O mais provável é que o tema em questão fossem as denúncias feitas pela CIDH de tortura e morte de Olavo Hansen, dirigente do Partido Operário Revolucionário Trotskista. Hansen foi preso em 1º de maio de 1970 e encontrado morto no dia 9. O atestado de óbito indicava intoxicação pelo pesticida Paration e a resposta encaminhada pelo governo brasileiro à comissão falava em suicídio e insistia que ''o Brasil está isento de culpa pela morte de Olavo Hansen''.
O Arquivo Nacional, no Rio, guarda dezenas de pastas com extensos relatórios do governo brasileiro eximindo-se de responsabilidade nas mortes de presos. Na vasta documentação há também cartas de parentes de presos denunciando torturas. Como a da viúva do jornalista Mário Alves a Aparecida Gomide, mulher do cônsul brasileiro do Uruguai, Aloísio Gomide, sequestrado em 1970 por guerrilheiros tupamaros. Mário Alves era dirigente do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR) e foi morto na prisão em janeiro de 1970. ''O seu marido está vivo, bem tratado, vai voltar. O meu foi trucidado, morto sob torturas pelo I Exército, foi executado sem processo, sem julgamento. Reclamo o seu corpo'', diz um trecho. (L.N.L.)

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