Em toda a eleição municipal, a proximidade física entre a paranaense União da Vitória e a catarinense Porto União faz nascer o candidato ‘‘interestadual’’. Segundo estimativas não-oficiais, no pleito deste ano pelo menos um terço dos candidatos nessa área de divisa mora em um Estado e é candidato no outro.
União da Vitória (234 quilômetros a sudoeste de Curitiba) e Porto União formam uma conurbação de 80 mil habitantes – 50 mil no município paranaense e 30 mil no catarinense. A única separação física entre as duas cidades são os trilhos de uma linha férrea, desativada há três anos e meio.
Além de candidatos e moradores, ocorre uma unificação também nos serviços públicos. As empresas parananeses Sanepar, Copel e a Telepar (companhia telefônica, recém-privatizada) atendem Porto União. O escritório regional da Sanepar está localizado, na verdade, em Porto União.
‘‘Isso é resultado da imprecisão das fronteiras entre Paraná e Santa Catarina’’, explica o sociólogo Ricardo da Costa Oliveira, professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR). ‘‘Santa Catarina sempre quis que seu território chegasse ao Rio Iguaçu e o Paraná, até o Rio Uruguai. O mapa atual é resultado de acordo assinado em 1916.’’ Com esse acordo, o território paranaense ‘‘avançou’’ para além do Iguaçu.
Dos quatro candidatos a prefeito de União da Vitória, a Folha apurou que três moram em Porto União. O único ‘‘nato’’ é o atual prefeito, Pedro Ivo Ilkiv (PT), candidato à reeleição e líder nas pesquisas. No município catarinense, a situação é semelhante. Dos três postulantes à prefeitura, apenas um mora na cidade – o petista Anizio de Souza.
‘‘Nasci e me criei em Porto União, sempre trabalhei aqui’’, afirma Eliseu Nibach (PMDB), 37 anos, atual prefeito de Porto União e candidato à reeleição, também favorito nas pesquisas. Nibach é dono de uma revenda de automóveis na cidade e usou o endereço dessa empresa para registrar a candidatura.
Mesmo não sendo necessário, esse artifício é usado pela maioria na hora de registrar a candidatura. O motivo é esconder do eleitor a ‘‘dupla-cidadania’’. A única exigência da lei eleitoral é que o candidato seja eleitor no município em que concorre há, no mínimo, um ano.
A situação verificada entre os candidatos a prefeito se repete na disputa pelas vagas às Câmaras dos dois municípios. União da Vitória tem 130 candidatos a vereador e sua vizinha, 96. ‘‘Moro no Norte de Santa Catarina (Porto União) e trabalho no Sul do Paraná (União da Vitória), onde o comércio é mais forte’’, conta a assistente administrativa Naoeli Ramthun, 34 anos, candidata a vereadora daquela primeira.
Apesar de ser uma situação comum, a ‘‘dupla-nacionalidade’’ quase trouxe problemas ao agrônomo Anésio Marques, 36 anos, candidato a vereador em União da Vitória. Adversários ingressaram na Justiça com pedido de impugnação de sua candidatura alegando que ele não mora no município. O pedido foi negado.

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