Choro, dissidência e pressão agitam votação da Previdência
Agência Estado
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DesesperoAffonso empresta o ombro para Sandra Starling (PT-MG): Chorei como há muito não chorava. Tive vergonhaO choro da deputada Sandra Starling (PT-MG) em plenário, a coragem de Dalila Figueiredo (PSDB-SP) de dizer não a um pedido pessoal do presidente Fernando Henrique Cardoso e o empenho de Alcione Athayde (PPB-RJ) para a construção de um acostamento nos 36 quilômetros da estrada que liga Campos a São João da Barra, no Rio, marcaram a aprovação, em primeiro turno, da reforma da Previdência, pela Câmara, anteontem à noite.
Sandra e Dalila votaram contra a reforma; Alcione, a favor. Chorei como há muito não chorava, disse Sandra ontem. Tive vergonha e procurei me esconder dos fotógrafos, mas não adiantou porque eles me encontraram. Dalila disse que tremeu ao receber do líder do PSDB, Aécio Neves (MG), o celular, com a informação de que do outro lado estava o presidente Fernando Henrique Cardoso. Alcione contou que, pessoalmente, o ministro dos Transportes, Eliseu Padilha, pediu desculpas a ela por não ter ainda liberado o dinheiro para a construção do acostamento da rodovia. O Padilha disse que corrigiria o equívoco.
As histórias que envolveram as três deputadas e chamaram a atenção tanto quanto a aprovação da reforma da Previdência, em primeiro turno:
Sandra - A deputada contou que, por volta das 16 horas, viu o deputado Gerson Peres (PPB-PA) correr tanto que chegou a pensar: Ele não tem mais idade para isto. Peres era o encarregado de negociar com o governo o destaque que retiraria do texto da reforma da Previdência a cobrança de contribuição dos inativos do serviço público.
Encontrei-me com o deputado Benito Gama (PFL-BA) e perguntei sobre as negociações para o destaque de Gerson Peres. Gama respondeu, segundo Sandra: Melou; os governadores de Minas (Eduardo Azeredo), São Paulo (Mário Covas), Rio de Janeiro (Marcello Alencar) e de outros estados pediram para que a isenção contemple apenas os servidores federais.
A deputada disse que considerou injusta a proposta negociada porque os servidores dos estados recebem menos que os federais. Procurou o partido e pediu que todos votassem contra, mas os companheiros argumentaram que haveria desgaste político se rejeitassem o destaque. Sandra não se convenceu. Fez uma declaração de voto e disse que iria se abster. Peres gritou: Você está defendendo causa própria porque é aposentada.
Sandra considerou-se injustiçada porque a aposentadoria dela é federal, como anistiada da Petrobrás, cujos vencimentos são de pouco mais de R$ 2 mil. Ela começou a chorar, apoiou-se no ombro do deputado Almino Affonso (PSB-SP) e, depois, no do líder do governo na Câmara, Luís Eduardo Magalhães (PFL-BA). Luís Eduardo pediu que os fotógrafos não registrassem a cena. Ele teve um comportamento exemplar, humano, disse a deputada.
Dalila - O governo previu que a deputada seria um dos quatro votos do PSDB contrários à reforma da Previdência. Um pouco antes da votação Aécio Neves chegou até ela com o celular. É o presidente Fernando Henrique, disse ele. Fiquei surpresa e tremi, relatou Dalila. Sou segunda suplente e assumi o mandato há pouco mais de um ano. Segundo a deputada, Fernando Henrique quis saber as razões dela para não votar a favor da reforma da Previdência. Depois, procurou tranquilizá-la, dizendo que respeitava as opiniões dela.
Acontece que o deputado Chico Vigilante (PT-DF) viu quando Neves se aproximou de Dalila, e ouviu ele dizer que, do outro lado, estava o presidente. Chico Vigilante pegou o microfone e anunciou para todos que o próprio Fernando Henrique estava pressionando os dissidentes. Neves reagiu e pediu que Chico Vigilante mudasse o comportamento. A deputada Marisa Serrano (PMDB-MS) tomou a defesa de Dalila e pediu para Chico Vigilante calar a boca.
Alcione Athayde - A deputada do Rio ficou na suplência, na eleição de 1994. Com a morte de Amaral Netto (PPB-RJ), passou à condição de titular. Tem uma atuação voltada para Campos, as bacias petrolíferas e as estradas da região. Desde 1997, luta para que o governo libere o dinheiro de uma emenda ao Orçamento, de autoria dela, destinando R$ 500 mil à construção do acostamento da estrada entre Campos e São João da Barra. Com a votação da reforma da Previdência, sentiu chegar a hora de fazer pressão para liberar o dinheiro.
O acostamento na estrada foi a primeira reivindicação que a comunidade fez, afirmou ela. Eu sou uma deputada do interior e procuro atender a todos os pedidos que me fazem. Segundo ela, o ministro Eliseu Padilha comprometeu-se a liberar o dinheiro. Ele considerou um erro não ter dado início às obras. Segundo Alcione, ela brigou para que a obra fosse concluída antes do verão. Neste período, a população de Campos vai toda para São João da Barra e muita gente morre por causa da falta do acostamento. (AE)





