Lourival Sant’Anna
Agência Estado
O presidente Jacques Chirac veio ao Rio com o propósito de desfazer a imagem de vilã que se construiu em torno da França, como o país que lidera a resistência à derrubada do protecionismo no setor agrícola. A campanha dos membros da comitiva francesa surtiu efeitos, mas não tem evitado nas manifestações de participantes da Cimeira, que a França continue na berlinda.
‘‘Participei desse processo e sempre notei a posição pouco generosa da França, principalmente no setor agrícola’’, confirmou o coordenador do Fórum Empresarial União Européia-Mercosul, Roberto Teixeira da Costa, que lidera, do lado brasileiro, a participação da iniciativa privada nas negociações para a liberalização do comércio entre os dois blocos.
Na noite de domingo, Chirac declarou que ‘‘o protecionismo europeu é lenda’’, lembrando que a França tem déficit de US$ 1,5 bilhão no comércio agrícola com o Brasil e a Argentina. Chirac aproveitou para prever que os países latino-americanos vão ter dificuldades em abrir seus mercados para serviços e produtos industriais, sugerindo que protecionismo não é exclusividade européia.
‘‘Os franceses colocaram, e é natural, os seus interesses e as suas posições negociadoras’’, comentou ontem o ministro do Desenvolvimento, da Indústria e do Comércio, Celso Lafer. ‘‘Nós vamos colocar as nossas.’’ O tom predominante entre os governos, no entanto, é de botar panos quentes. Indagado sobre as declarações de representantes franceses, de que a resistência da França era invenção da Espanha, o chanceler espanhol, Abel Matutes, não aceitou a provocação. ‘‘As declarações de hoje (ontem) de Chirac foram magníficas’’, disse. ‘‘A Espanha e a França estão totalmente sintonizadas.’’
Lafer disse ontem que um avanço na liberalização comercial dos produtos agrícolas na União Européia depende da capacidade do Brasil de ceder na área industrial. ‘‘É importante observar que uma negociação é uma via de mão dupla’’, afirmou o ministro.
Lafer explicou que a maior dificuldade está no acesso de produtos agrícolas brasileiros aos mercados europeus em função das barreiras impostas pelos países da região. ‘‘Eles oferecem subsídios à produção e à exportação’’, afirmou o ministro, referindo-se ao fato que a medida torna menos competitivo o produto nacional. Ele lembrou que não serão simples as negociações com a França, um dos países que mais pratica o protecionismo comercial. ‘‘Eles têm suas posições e interesses e nós vamos colocar os nossos’’, disse. ‘‘Não é fácil compor, mas acho que há espaço para negociações.’’

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