Brasília - Em visita de Estado ao Brasil, o presidente da França, Jacques Chirac, não apresentou nenhuma garantia de que apoiará uma maior abertura do mercado agrícola da União Européia, caso o governo brasileiro e seus aliados do G-20 concordem com uma maior liberalização dos setores industrial e de serviços na Rodada Doha da Organização Mundial do Comércio (OMC).
Ao lado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no Palácio da Alvorada, Chirac atacou os Estados Unidos, por sua resistência em reduzir os subsídios à produção agropecuária, e cobrou do Brasil e das demais economias em desenvolvimento a ausência de ofertas nas áreas industrial e de serviços. Por fim, em uma expressão clara de suas intenções na Rodada, declarou que a ''Europa já fez tudo o que podia e devia''.
As declarações foram feitas depois de um encontro de três horas entre Chirac e Lula, na residência oficial do Presidente da República. Chirac, entretanto, reagiu com nervosismo quando questionado sobre as garantias de apoio francês a uma proposta melhorada da União Européia na área agrícola, se o Brasil e seus aliados fizerem os movimentos cobrados pela Europa. Tirou o fone de ouvido, que lhe permitia escutar a tradução simultânea, e passou a fazer perguntas a Lula, que não entende francês. Sem saída, disparou: ''Não vou repetir pela segunda vez o que eu disse. Eu disse há pouco qual era a posição da Europa, dos países emergentes, dos países menos adiantados. Deixe que cada um faça um pouquinho. Os Estados Unidos é que devem dizer o que deve ser feito.''
O líder francês mostrou-se visivelmente alheio à avaliação do governo brasileiro, para quem essa postura da União Européia levará a Rodada Doha ao fracasso. Primeiro, porque será impossível obter dos Estados Unidos uma proposta melhor na área de subsídios domésticos; segundo, porque será improvável arrancar das economias em desenvolvimento maior liberalização dos setores industrial e de serviços.
Fincado nos interesses dos agricultores franceses, Chirac propôs uma inusitada aliança entre a Europa e o Brasil na OMC contra os Estados Unidos. ''Os Estados Unidos, na realidade, têm a chave do problema. A Europa fez tudo o que podia e devia fazer. Honestamente, não tem novos passos a dar'', afirmou, para depois acrescentar que ''o fato é que os países em desenvolvimento não deram nenhum passo significativo em direção à Europa, nos planos da indústria e serviços. É preciso esperar um pouco de progresso nesses planos''.
Em seus ataques a Washington, Chirac chegou a insinuar que a união das forças do Brasil e seus aliados com as dos Estados Unidos, na Conferência da OMC em Hong Kong, em dezembro de 2005, foi equivocada. Essa aliança, entretanto, garantiu o compromisso de eliminação, até 2013, dos subsídios às exportações agrícolas um dos pilares da Rodada Doha.
Na condição de anfitrião, o presidente Lula não deixou de fincar pé nas posições do Brasil na Rodada Doha. Insistiu mais uma vez que o País e o G-20 (o grupo de economias em desenvolvimento que pretende a abertura e o fim dos subsídios agrícolas) estão dispostos a fazer ''as concessões possíveis'' e concordou que, tanto a Europa quanto os Estados Unidos, precisam fazer movimentos na área agrícola.
Lula, porém, alertou que o fracasso da Rodada significará aumento da pobreza no mundo e que as decisões sobre a Rodada devem, a partir de agora, deixar de seguir lógicas econômicas e comerciais e tornar-se atos políticos. Lula voltou a defender a realização de um encontro dos líderes dos países mais influentes na OMC, como meio de acertar os compromissos políticos necessários para a conclusão da Rodada Doha até o final deste ano.
O governo brasileiro já tentou realizar tal reunião em paralelo com a Cimeira União Européia-América Latina, neste mês, em Viena. Agora, tentará novamente, durante a reunião de cúpula do G-8 (o grupo das economias mais ricas do mundo, incluindo a Rússia), em julho próximo, em São Petersburgo.

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