Cestas e remédio apreendidos acirram campanha eleitoral
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quinta-feira, 21 de setembro de 2000
Emerson Cervi e Valmir Denardin De Curitiba 
A apreensão pela Justiça Eleitoral de cestas básicas e de 24 caixas do medicamento Dimorf 10 mg, na Rádio Educadora, de União da Vitória (237 quilômetros a sudoeste de Curitiba), acirrou a disputa entre os principais candidatos a prefeito. A apreensão ocorreu na madrugada de anteontem, quando um oficial de Justiça foi cumprir mandado de busca e apreensão de cestas básicas que estariam estocadas na rádio. A emissora é católica e pertence à Fundação Sagrado Coração de Jesus, mas está arrendada para Hussein Bakri, que é candidato a prefeito pelo PSDB.
Foram apreendidos mais de 1,5 mil quilos de alimentos na emissora, além do medicamento. Já comprovamos a origem de tudo, inclusive com nota fiscal dos doadores dos alimentos, alegou Aref. A rádio possui um programa Voz da Esperança que faz intermediação de doações para famílias pobres. O programa é apresentado por Hussein, que está afastado desde julho por exigência da legislação eleitoral.
O princípio ativo do Dimorf é a morfina, cuja venda é controlada. O medicamento é usado principalmente no tratamento de doentes de câncer em estágio terminal. De acordo com a resolução 344/98 do Ministério da Saúde, o remédio é considerado entorpecente e sua venda só pode ser feita com receita especial (um formulário amarelo, cuja distribuição é controlada pela Secretaria Estadual da Saúde). A receita fica retida na farmácia. Fora dessas condições, a comercialização é considerada tráfico.
O diretório municipal do PT, partido do atual prefeito e candidato à reeleição, Pedro Ivo Ilkv, fez a denúncia de troca de votos por cestas básicas pelo candidato oposicionista. Ontem, Hussein não quis falar sobre o assunto. Mas seu irmão, Aref Bakri, afirmou que a apreensão teria motivações eleitoreiras. Nós explicamos tudo para a Polícia, contando a origem e a destinação dos medicamentos. Imagine se uma rádio católica iria permitir a distribuição desse tipo de droga, disse Aref.
De acordo com Aref, o medicamento foi doado pelo ouvinte José Pires, cujo irmão (que teria o nome de Sadi) morrera, vítima de câncer. O irmão dessa pessoa estava internado em um hospital de Florianópolis (SC), mas como não tinha chances de recuperação, os médicos o mandaram para casa junto com a medicação necessária para um mês de tratamento, afirmou. Ao todo, eram 30 caixas, mas o paciente morreu depois de três dias em casa e a família doou as 24 caixas do Dimorf restantes para o programa.
Bakri garantiu que já havia entrando em contato com a Liga Paranaense de Combate ao Câncer, em Curitiba, para repassar as caixas do remédio. Como se trata de um medicamento caro, o pessoal do hospital Erasto Gaertner se interessou e se comprometeu em vir buscar ainda esta semana.
A direção do hospital informou que nem o hospital e nem a Rede Feminina de Combate ao Câncer foram procurados formalmente pelo candidato ou um intermediário para a doação. A Folha tentou localizar o ouvinte Pires em União da Vitória, mas seu nome não consta na lista telefônica da cidade.
Mesmo que o Dimorf realmente fosse doado ao hospital, o candidato estaria cometendo pelo menos uma irregularidade. O artigo 90 da resolução 344/98 determina que, em caso de doação, medicamentos controlados sejam entregues à Vigilância Sanitária, para controle e verificação se o produto está em condições de uso. Sobre as cestas básicas, Aref disse que os alimentos são doações de ouvintes, que seriam distribuídos para pessoas carentes pelo programa e não como parte da campanha eleitoral.
O juiz eleitoral Ricardo Reis de Macedo e a promotora eleitoral da cidade, Luciana Lineiro, não foram encontrados ontem à tarde no Fórum. Segundo funcionários, eles estavam em audiência. O Tribunal Regional Eleitoral (TRE), em Curitiba, informou que o órgão não havia recebido, até o final da tarde, informações sobre a denúncia.
Jussara Ferrato dos Santos, chefe da Divisão de Produtos da Vigilância Sanitária do Paraná, em Curitiba, informou que determinou ao Núcleo Regional de Saúde de União da Vitória uma investigação sobre o caso.


