Cerveró nega acusações em depoimento na PF
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 16 de janeiro de 2015
Rubens Chueire Jr. <br>Reportagem Local 
Curitiba - O ex-diretor da Área Internacional da Petrobras Nestor Cerveró, que segue preso na carceragem da Polícia Federal (PF) em Curitiba, depôs ontem por cerca de três horas no período da manhã, e negou veemente ter recebido propina do lobista Fernando Soares, o "Baiano", para fechar a compra de dois navios-sonda para perfuração de águas profundas, conforme apontam as denúncias do Ministério Público Federal (MPF). Além disso, ele também afirmou aos delegados que todas as movimentações financeiras realizadas até o final do ano passado, incluindo as transações imobiliárias envolvendo seus filhos, e que basearam o pedido de prisão feito pelos procuradores, estão dentro da legalidade.
Segundo Beno Brandão, um dos advogados de Cerveró, ele se viu obrigado a realizar as movimentações, entre elas a tentativa de resgate de R$ 463.763,00 de seu plano de Previdência Privada, porque estaria passando por dificuldades financeiras desde março do ano passado, quando foi demitido da estatal. "Ele era um diretor da Petrobras, ganhava R$ 100 mil por mês, agora está ganhando cerca de R$ 10 mil de aposentadoria. Além disso, a filha depende dele economicamente. Ele iria fazer o resgate do fundo de Previdência Privada mas, em razão da tributação que viria a incidir sobre a operação, isso não foi concretizado", disse o defensor.
No depoimento, Cerveró também falou a respeito da polêmica em torno da transferência de bens para familiares. O MPF considerou que isso foi uma tentativa de evitar o confisco de imóveis e investimentos para pedir a prisão do ex-diretor. O ex-diretor declarou que apenas decidiu antecipar a herança que deixaria aos filhos. "Em relação aos imóveis todos estão declarados no imposto de renda e foram adquiridos anos atrás, fruto do trabalho dele, apenas um deles é herança que recebeu do próprio pai", afirmou o advogado.
A defesa negou ainda que Cerveró tenha contas no exterior e tenha recebido propinas por intermédio de Fernando "Baiano" por contratos fechados pela Área Internacional da Petrobras. "Foi um depoimento bem tranquilo, e meu cliente respondeu todas as perguntas. Negou veemente ter recebido propina de quem quer que seja para compra dos navios-sonda ou por qualquer outra operação. Além disso, informou que nunca teve contas no exterior´´, disse Brandão.
O ex-diretor confirmou que conheceu Fernando Soares por volta dos anos 2000, quando ainda era gerente executivo de energia da estatal, e que a aproximação ocorreu uma única vez, no período da crise energética, quando a Petrobras decidiu investir em negócios de geração e distribuição de energia. "Baiano", segundo Cerveró, representava empresas espanholas do ramo de energia térmica. Uma das empresas, citada pelo ex-diretor como sendo a Union Fenosa, pretendia fazer uma parceria com a Petrobras para investir no fornecimento às usinas. O contrato foi celebrado, mas de acordo com Cerveró, não teve valores significativos para a estatal.
Ainda, conforme relatou seu advogado, Cerveró declarou que intermediou com Júlio Camargo (executivo da Toyo-Setal e que celebrou delação premiada) o aluguel de sondas de prospecção para a estatal. No depoimento, ele conta que, em 2006, a estatal promoveu uma parceria com a empresa Mitsui, representada na época por Camargo, para a construção de navios-sonda e plataformas petrolíferas.
As duas companhias constituíram uma subsidiária no exterior que, mais tarde, alugou as embarcações para a própria Petrobras. Ainda segundo o depoimento do ex-diretor, "Baiano" indicou Camargo, dizendo que este tinha contato com empresas que poderiam viabilizar o negócio. A sul-coreana Samsung também participou do negócio, construindo os navios e plataformas. O contrato, de acordo com Cerveró, foi de cerca de aproximadamente R$ 1 bilhão para cada uma das sondas.
Beno Brandão ressaltou que Cerveró não foi perguntado sobre as negociações para a compra da refinaria de Pasadena, no Texas, nos Estados Unidos, que causou prejuízos da ordem de US$ 792 milhões à estatal. Conforme o advogado, isso deve ser objeto de um novo depoimento que deve ocorrer provavelmente na próxima semana. A defesa aguarda agora o julgamento do pedido de habeas corpus impetrado ontem de manhã no Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF4), em Porto Alegre.


