Rio – O ex-diretor internacional da Petrobras Nestor Cerveró foi vaiado e xingado de "bandido", "safado" e "ladrão" por passageiros do voo da Gol que o trouxe ontem de Curitiba para o Rio. Preso pela Lava Jato por um ano e cinco meses, em Curitiba, Cerveró ficará agora em prisão domiciliar, de tornozeleira eletrônica, em uma residência que possui em Itaipava, na Região Serrana do Rio, como parte de seu acordo de delação premiada com o Ministério Público Federal (MPF). Segundo sua defesa, é o único imóvel que restou de seu patrimônio, que será usado para a devolução de R$ 17 milhões aos cofres públicos, dinheiro recebido por ele irregularmente quando na estatal.

Cerveró veio na classe econômica de um voo comercial da Gol. Sua presença chamou a atenção dos demais passageiros já no embarque no Aeroporto Afonso Pena, em São José dos Pinhais, na Região Metropolitana de Curitiba, por conta da presença de policiais federais e de equipes de reportagem. Acompanhado de dois agentes, ele se sentou na última fileira da aeronave. Para não ser reconhecido, usava boina e óculos escuros. Um repórter da GloboNews o abordou durante o voo com perguntas sobre a delação e a prisão domiciliar, e Cerveró respondeu: "Desculpe, mas eu não dou entrevista".

Os passageiros mantiveram-se em silêncio até o pouso no Rio. Pouco depois da aterrissagem, vários deles se levantaram de suas poltronas e começaram a tirar fotos e filmá-lo com telefones celulares. Os mais exaltados o xingaram. "Quando pousamos o pessoal não se conteve. Muitos começaram a gritar 'bandido!', 'ladrão!'. É uma revolta com a impunidade. Ele fez o que fez e volta ao Rio com privilégios. Tinha que encarar a sociedade e devolver tudo o que roubou", desabafou a professora Benely dos Santos, de 56 anos, que estava no voo.

No Aeroporto do Galeão/Tom Jobim, Cerveró não passou pela área de desembarque, onde era aguardado por diversas equipes de reportagem. Saiu direto do avião para um carro da Polícia Federal, que o aguardava na pista, e de lá partiu para Itaipava, destino de veraneio muito procurado por cariocas de classe média e alta a cerca de uma hora da capital. Sua casa fica num condomínio de alto padrão. De lá, Cerveró não poderá sair, a não ser para prestar depoimentos ou em caso de emergência médica.

A advogada Alessi Brandão, que compõe sua defesa, considerou "normal" a reação dos passageiros. "Era esperada. Evidentemente, depois de tudo o que aconteceu, ele (Cerveró) sente um arrependimento muito grande". Durante o período em Curitiba, ele teve crise de ansiedade e de choro. O ex-diretor voltou ao Rio no dia do aniversário de 35 anos do filho, o ator Bernardo Cerveró, cujo nome ficou conhecido nacionalmente quando ele gravou uma conversa com o ex-senador Delcídio Amaral. A gravação levou à prisão de Delcídio por obstrução da Lava Jato.

Mirando na redução de sua pena, de 27 anos e quatro meses, por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, o ex-diretor internacional da Petrobras revelou o pagamento de pelo menos R$ 564,1 milhões em suborno envolvendo negócios da empresa e da subsidiária BR Distribuidora. Ele citou onze políticos como beneficiários dos desvios. Confessou ter ficado com US$ 2,5 milhões oriundos dos US$ 15 milhões em propina oriunda da compra da refinaria de Pasadena pela Petrobras, em 2005.

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