Cem dias de governo e Lula quer resultados
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sábado, 05 de abril de 2003
Vera Rosa<br> Agência Estado 
Brasília Depois de passar em seu primeiro teste político no Congresso e levar bomba na área social, o governo do PT completa cem dias, na quinta-feira, ansioso por mostrar resultados. Embalado por sua alta popularidade, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva vai inaugurar a prometida fase do governo itinerante, com muitas viagens pelo Brasil. Quer tirar do limbo o programa Fome Zero, pôr na rua o bloco do Primeiro Emprego, gerenciar a crise de perto e iniciar a ''era das reformas''.
''Não há um dia em que eu não levante com a certeza de que nós vamos dar a volta por cima e este País vai voltar a crescer'', diz Lula. O presidente já admite, porém, que o surrado clichê da vontade política - tão usado por ele na oposição - não basta no poder. Do contrário, o salário mínimo anunciado na semana passada seria superior a R$ 240. Mais: afirma com todas as letras que quatro anos é pouco para fazer tudo o que sonhou. Que dirá, então, cem dias.
O ministro da Educação, Cristovam Buarque, resume em duas frases o ''risco'' de ultrapassar essa barreira. ''O governo precisa mostrar resultados antes da primeira canjica, em junho'', adverte, numa referência às festas juninas. ''Até hoje, caminhamos da confiança para a nitidez das propostas, mas agora o povo vai querer que a gente saia dos projetos para as realizações.
Em pouco mais de três meses no poder, ministros do PT deram trombadas, articuladores políticos, cabeçadas, e o chamado ''fogo amigo'' consumiu horas de conversas nada reservadas. Na quarta-feira, o governo conseguiu aprovar a proposta de emenda constitucional que regulamenta o sistema financeiro e abre caminho para a autonomia do Banco Central. Não foi uma tarefa fácil: o Palácio do Planalto só conquistou a vitória graças ao apoio do PSDB, PFL e PMDB.
De qualquer forma, apesar da melhora dos indicadores econômicos, com a queda do dólar e do risco-país, o governo Lula continua recebendo críticas ferozes dos radicais de seu próprio partido. ''Desencontro e batidas de cabeça são naturais'', ameniza o ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu. ''A sociedade tem de se acostumar conosco: nós passamos 22 anos no PT cuidando de crise, de divisões e divergências; portanto, somos especialistas em crises.
O secretário especial de Desenvolvimento Econômico e Social, Tarso Genro, vai mais longe. ''Há dificuldades administrativas, sim, porque o aprendizado da máquina é de no mínimo seis meses'', justifica.
Oásis Tucano de quatro costados, o senador Arthur Virgílio Neto (PSDB-AM) aproveita a deixa para bombardear o governo. No seu diagnóstico, o ministro da Fazenda, Antônio Palocci Filho, é ''um oásis'' no deserto petista. ''Tenho até medo de elogiar o Palocci porque eles podem demiti-lo'', provoca.
Da ala dos que compõem a base governista, o deputado Roberto Jefferson (RJ), líder do PTB na Câmara, devolve a estocada. Sem papas na língua, diz que Virgílio integra a turma das ''viúvas do Serra'', numa alusão aos apoiadores do ex-senador José Serra (PSDB) na campanha presidencial. ''Tenho muita saudade da oposição barulhenta e carpideira, porque essa oposição de hoje não tem graça nenhuma: só funga e usa óculos escuros'', ironiza.
Mas até entre os aliados a atual fase do governo, com corte de investimentos e programas sociais que não saem do papel, provoca angústia. ''Transição não é paralisia'', argumenta o deputado Roberto Freire (PE), líder do PPS. ''As mudanças só podem ocorrer com as reformas tributária e da Previdência e um mea-culpa talvez seja bom para o PT. Após muitas idas e vindas sobre o conteúdo das reformas, Lula promete enviá-las para o Congresso ainda este mês.


