Paulo Sérgio da Silva, o Beiçola, é catador de papel em Ibiporã (14 km a leste de Londrina). Juscelino Vieira de Melo é gari da Prefeitura de Sertanópolis (40 km ao norte de Londrina). Ambos apresentam perfis distantes da descrição do político típico. Mas a partir de 2005 os dois passarão a ocupar cadeira na Câmara de Vereadores das cidades onde moram.
O desempenho de Beiçola (filiado ao PFL) nas urnas foi surpreendente: com 1.532 votos, ele é o vereador mais votado em uma eleição em toda a história de Ibiporã. Tal marca representa 5,71% dos votos válidos, o que proporcionalmente torna o catador de papel um dos candidatos a vereador mais votados do Brasil. ''Quando me candidatei, queria mostrar que um catador podia ser bom vereador'', diz Beiçola.
Os números de Melo (que está no PTB) são mais modestos (329 votos), mas ele conseguiu o que muitos tentam e poucos alcançam: eleger-se na primeira eleição que disputa. A vida dele e a de Beiçola são marcadas pelas dificuldades. Melo reforça os ganhos como gari com a renda que tira roçando datas, fazendo serviços de jardinagem, vendendo sorvetes.
Beiçola estudou apenas até a 4 série do Ensino Fundamental e tem família de histórico conturbado: o pai bebia muito e batia na mãe diariamente. O próprio Beiçola já teve problemas com a bebida. ''Mas já são parte do passado'', garante ele, solteiro, sem filhos. No ano passado, o pai morreu de cirrose. Sem condições de sustentar a mãe, Beiçola levou-a a um asilo.
O futuro vereador já trabalhou como preparador de carros, vendedor de vassouras. Catando papel, tira cerca de R$ 250 por mês. Ele apenas desconfia do motivo pelo qual foi tão bem nas urnas. ''Acho que o pessoal me vê trabalhando e percebe que tenho vontade de mostrar serviço'', explica.
A entrada de Beiçola e Melo na política foi quase acidental: foram convidados por amigos e acabaram tomando gosto pela coisa. Até dez meses atrás, Melo não cogitava a hipótese de se tornar vereador. ''Um amigo (do PMDB, que em Sertanópolis fez coligação com o PTB) sugeriu que eu tentasse'', lembra o gari, que é pai de três filhos.
Ele e Beiçola entraram de tal forma no jogo que ambos já têm o discurso na ponta da língua. ''Quero mais saúde e segurança para Sertanópolis, porque nessas áreas 'tão' deixando a desejar. E mais emprego também. Quero ajudar gente humilde como eu'', sonha Melo.

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