CASSADO!
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 22 de junho de 2000
Cláudio Osti De Londrina 
Antonio Belinati, três vezes prefeito, é o primeiro a perder o mandato nos 66 anos de história de emancipação do município. Ele estava três vezes afastado do cargo uma delas recuperada na Justiça e vinha colecionando sucessivas derrotas na primeira instância, no Tribunal de Justiça e no Superior Tribunal de Justiça. Hoje de manhã, ele caiu. O que derrubou Belinati, de 57 anos, foi a propaganda considerada abusiva para a inaugração do Pronto Socorro Infantil (PAI).
Depois de 26 horas de intensos debates, os vereadores de Londrina cassaram hoje de manhã o mandato do prefeito afastado Antônio Cassemiro Belinati (PFL) numa sessão especial de julgamento que foi iniciada ontem às 7 horas e só terminou hoje às 9 horas. Belinati, que cumpria o terceiro mandato, é o primeiro prefeito cassado em Londrina, em 66 anos de emancipação do município.
Belinati é acusado de gastos excessivos em publicidade e promoção pessoal na inauguração do Pronto Atendimento Infantil (PAI) ocorrida em 27 março de 99. Numa sessão cansativa, mas tranquila, Belinati foi considerado culpado de infrações político-administrativas pelos vereadores. A defesa do prefeito na Câmara foi feita pelos advogados João Graça e Mauro Viotto. Os dois prometem recorrer da decisão.
Minutos depois do presidente da Casa, Flávio Vedoato (PL), anunciar a cassação do prefeito por 14 votos contra 6, os integrantes do Movimento pela Moralidade na Administração Pública de Londrina, iniciaram a comemoração. Soltaram rojões na praça ao lado da Câmara e fizeram uma carreata pelas ruas do centro da cidade. Foi a vitória da ética, da moralidade, disse o presidente da subseção da OAB de Londrina, Lauro Zanetti.
Põe aí no jornal que o Belinati foi cassado por um açougueiro que ele subestimou, disse o vereador Orlando Bonilha Proença, com os olhos cheios de lágrimas. Foi um desabafo. Bonilha deu o voto de minerva que possibilitou a cassação. Aliado de primeira hora do prefeito Antônio Belinati o vereador começou a mudar de posição nas últimas semanas. De vilão denunciado no início do mandato por depositar em sua conta particular cheques de salários de funcionários de seu gabinete e integrante da bancada do prefeito na Câmara, passou a herói para os membros do Movimento pela Moralização na Administração Pública.
A denúncia de gastos excessivos e promoção pessoal na inauguração do PAI foi apresentada pelos advogados Luiz Fernando Oliveira Batista, Maria Terezinha Navarro e Paulo Alípio de Campos Silveira, o contador Luiz Antonio Pereira Marques e o estudante Leonardo Navarro Thomaz de Aquino.
A Comissão Processante havia sido instalada no dia 23 de março e Bonilha escolhido como presidente. Dias depois, ele e o vereador Jacy Aguiar foram acusados pelo prefeito Antônio Belinati de tentar extorquir dinheiro, em nome de um grupo de vereadores, para não irem adiante com a comissão. O vereador renunciou à presidência no dia 17 de abril. No lugar dele assumiu Osvaldo Bergamim (PMDB). Bonilha, no entanto, não esqueceu a humilhação que lhe fora impingida pelo prefeito. Quem bate esquece, mas quem apanha não esquece, relembrou hoje. Ele magoou a minha família, meus filhos. Belinati foi muito mau caráter, comentou Bonilha.
Depois dos encaminhamentos iniciais, os vereadores começaram a se revezar na leitura do processo de 1.924 laudas. Segundo o processo, Belinati é acusado de ter cometido sete infrações: convite, com a assinatura do prefeito, para a inauguração do PAI confecção e expedição; telefonemas (telemarketing) com mensagem gravada pelo próprio Belinati; transporte de pessoas para a inauguração; colocação de outdoors; ampla publicidade nos principais jornais do Estado; divulgação da inauguração em emissoras de rádio e televisão; publicação da revista do Meio Ambiente/AMA onde há uma foto do prefeito e um texto assinado por ele.
Segundo apurou a Comissão Processante, foram gastos aproximadamente R$ 400 mil em publicidade para a inauguração do PAI. Em depoimento à CP, Antonio Belinati afirmou que havia gasto apenas R$ 40 mil. O caldo engrossou com o depoimento do publicitário Waurides Brevilheri Junior, proprietário da Metrópole Propaganda, responsável pela campanha publicitária de inauguração do Pronto Atendimento. Brevilheri Junior apresentou notas fiscais e peças de campanha que comprovaram gastos bem acima dos admitidos pelo prefeito.
Os advogados Mauro Viotto e João Graça não conseguiram convencer os vereadores do contrário. Às 5 horas da madrugada de hoje, quando iniciou a defesa, Viotto disse que Belinati não havia autorizado gastos superiores a R$ 40 mil para a inauguração do PAI. Os advogados do prefeito afastado também tentaram fazer com que a votação fosse secreta, mas não obtiveram êxito.
Os vereadores optaram pelo nominal aberto. Dois vereadores, Elza Correia (PMDB) e Carlos Santa Rosa (PFL) foram impedidos de votar. João Graça havia conseguido uma liminar na Justiça alegando a suspeição de Elza e Santa Rosa que teriam feito comentários na imprensa sobre o caso dando a entender que iriam votar pela cassação de Belinati. No lugar deles assumiram Daniel Hatti (PFL) e Francisco Roberto (PT), que votaram pela cassação.
Embora cassado e com direito a recurso na Justiça, Belinati ainda responde a uma Comissão Processante que investiga a venda de ações da Sercomtel e também à Comissão Especial de Inquérito geral sobre denúncias de outros desvios de sua administração.


