Em meio às ações que denunciavam de desvio de recursos dos cofres municipais que culminaram em dois afastamentos do cargo , e de irregularidades na venda de 45% das ações da Sercomtel, foi o excesso de gastos e a promoção pessoal na publicidade do Pronto Atendimento Infantil (PAI) que geraram a cassação do mandato de Antonio Belinati (PP).
Assistindo a inauguração do PAI pela janela do oitavo andar do Edifício Metrópole, no Calçadão, no dia 27 de março de 1999, os advogados Maria Terezinha Navarro, Luiz Fernando Oliveira Batista, Paulo Alípio de Campos Silveira, o contador Luiz Antonio Pereira Marques e o então estudante de Direito Leonardo Navarro Thomaz de Aquino, se motivaram a averiguar o que seriam indícios de infração político-administrativa do prefeito. ''No dia da assembléia do condomínio estava sendo inaugurado o PAI. Vimos que a festa estava muito grande, com helicópteros, e achamos que era muito dinheiro para pouca coisa. Aí fomos atrás investigar e vimos que realmente tinham coisas erradas'', relembrou Marques.
''A gente tinha bastante material publicitário utilizado para divulgação do PAI, muitos folders. Na época, eles telefonaram para as pessoas convidando para participar da inauguração'', relatou Aquino.
De posse dos indícios de gastos excessivos, eles protocolaram na Câmara de Vereadores no dia 13 de março de 2000, o pedido de abertura de Comissão Processante (CP), elencando como infrações a confecção e expedição de convites para a inauguração do PAI; telefonemas (telemarketing); transporte de pessoas; colocação de outdoors; ampla publicidade na imprensa local e regional, além da publicação de uma revista em que há um texto assinado pelo prefeito falando da obra. A CP investigou a denúncia por cerca de 80 dias, o que gerou um processo de 1.924 páginas, que recomendava a cassação. A CP apurou que teriam sido gastos na inauguração do PAI, mais de R$ 400 mil, cerca de 10% do valor da obra.
O relatório da comissão foi levado à votação no dia 21 de junho de 2000. Para a cassação do mandato de Belinati, eram necessários 2/3 dos votos dos 20 vereadores somente Jorge Scaff não votou porque ocupava interinamente o cargo de prefeito. Após cerca de 27 horas de sessão, com exatos 14 votos, Belinati entrava para a história da cidade como o primeiro prefeito com o mandato cassado. ''Acreditávamos na prestação de contas e na punição. Não tínhamos interesse, como chegou a ser falado na época, de sermos candidatos a alguma coisa'', salientou Marques. Nenhum dos três entrevistados é filiado a partidos políticos.
Cinco anos depois da cassação, os signatários da denúncia se dizem frustrados. ''Me sinto muito frustrado. A gente gostaria que não só o prefeito fosse punido. Principalmente ele mas também outras pessoas que estavam do lado dele e que o ajudaram'', disse Marques, se referindo às ações civis públicas ajuizadas pelo Ministério Público (MP), denunciando desvios dos cofres municipais e que, até agora, não foram julgadas. ''Como cidadão há uma frustração. Você vê como que a Justiça, quando ela quer, ela consegue ser morosa e quando ela quer é rápida também. Por outro lado, serviu também de conscientização para a população, tanto é que ele não conseguiu ser reeleito'', afirmou Aquino. ''Está na hora da população mais esclarecida se levantar novamente e cobrar das autoridades, cobrar do Judiciário uma posição, o que pode se fazer para agilizar isso para não deixarmos que aconteça novamente'', analisou Maria Terezinha.
Os três autores do pedido de abertura da CP disseram que continuam atentos à administração municipal. ''Quando a gente se une, a gente tira o prefeito que não está bem, a gente tira o juiz que não está bem, a gente tira qualquer autoridade, basta se unir. O povo tem muita força só que se ficar recolhido em casa não acontece nada'', ensina Marques.

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