O alvo da insatisfação e das críticas não é ele, mas a instituição, desgastada em um sistema político-partidário que ''apodreceu'' - embora em meio a um sistema democrático que, na contramão, ''precisa amadurecer ainda mais''. Da mesma forma, as (parcas) manifestações da sociedade citando o nome dele, nos últimos meses, tiveram um outro alvo subliminar: ''Elas não são contra Renan Calheiros. Elas são contra as desigualdades, contra o sofrimento por que passam os brasileiros''. A avaliação do cenário é do próprio Renan, que, na semana passada, se viu livre da primeira acusação por quebra de decoro parlamentar no julgamento que ainda rende controvérsias. Em votação secreta e na sessão fechada com forte esquema de segurança, o peemedebista eleito pelo estado de Alagoas foi absolvido no processo por quebra de decoro parlamentar com 40 votos favoráveis e seis abstenções, diante de 35 senadores contrários.
Em entrevista por e-mail à FOLHA, Renan, 52, falou sobre a votação, sobre o papel do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no processo e, entre outros assuntos, sobre as críticas que recebe, dentro e fora do Senado.
No último dia 12, Renan foi absolvido da acusação de quebra de decoro parlamentar por ter supostamente pago a pensão de uma filha com a jornalista Mônica Veloso, fora de seu casamento, com verbas de um lobista da empreiteira Mendes Junior. Além dessa, porém, há outras três representações contra ele, na Comissão de Ética da Casa, à espera de julgamento. A segunda, formulada pelo PSOL, o acusa de beneficiar a Schincariol junto ao INSS após a empresa comprar uma fábrica de seu irmão, o deputado Olavo Calheiros (PMDB-AL), por preço acima do praticado no mercado. Em um terceiro processo, Renan é acusado de usar laranjas para comprar um grupo de comunicação em Alagoas com recurso não declarado à Receita Federal. Já a quarta representação, também do PSOL, e encaminhada esta semana pela Mesa Diretora ao Conselho de Ética, cobra apuração ante a denúncia de que o senador teria participado de um esquema de desvio de dinheiro em ministérios chefiados pelo PMDB.
Na avaliação de Renan, nem as representações, tampouco as declarações de senadores da base e de oposição cobrando seu afastamento da presidência da Casa colocam em risco o restante de seu mandato no posto - que termina ano que vem. Alheio a isso tudo, sentencia: ''Essa crise será superada. O Senado tem uma oposição responsável''.
''Nunca fui e nunca serei movido por pressões. É minha obrigação me manter no cargo, é a vontade da maioria dos senadores'', apontou, esclarecendo ainda que essa é também questão ''de foro pessoal''. ''É à frente da Presidência que devo provar minha inocência e lutar por minha defesa. Não poderia trair os 73 votos que me elegeram, os 51 que me reelegeram e os 46 que me absolveram''.
''OPOSIÇÃO''
Diferentemente das manifestações dentro e fora do plenário, o presidente do Senado sinalizou que oposição e governo não agiram em tanta divergência assim quanto alardearam junto à opinião pública. O que houve, diz, foi uma suposta conotação político-partidária com o qual o processo teria se impregnado.
''Quem acompanha minha atuação à frente da instituição sabe que, em nenhum momento, faltei com minhas responsabilidades parlamentares. No fim da sessão legislativa passada, o senador Álvaro Dias (PSDB-PR) fez uma avaliação, em nome da oposição, da minha atuação na presidência da Casa e classificou como bem sucedida a minha administração diante das tensões, dos conflitos, das contrariedades e das contradições por que o Parlamento passa'', gabou-se.
Qual o fiel da balança na absolvição, portanto? ''Foi a verdade. Apresentei documentos e explicações que comprovam a minha inocência. Minha inocência não é opinião, é convicção, é embasada por provas. As acusações e denúncias são levianas, baseadas em opiniões, mágoas, ressentimentos temperados com oportunismo'', indicou.
VOTO SECRETO
Questionado se é a favor do voto aberto para casos de cassação de mandato - possibilidade que voltou a ser cogitada, durante seu processo -, Renan desconversou: para ele, o voto secreto ''não foi criado por acaso''; ''tem sua lógica e não somente em regimes de exceção, na democracia também'', mas aparentemente figura em posição secundária em uma lista de mudanças requeridas pela reforma política. ''O nosso sistema político-partidário apodreceu. Nossa democracia já amadureceu bastante e precisa amadurecer ainda mais. O fim do voto secreto é um passo no caminho de uma democracia mais robusta, mas há outros passos que precisamos dar antes. Não adianta levantar as paredes sem uma fundação que as sustente'', apontou, sem citar quais 'paredes', exatamente, carecem de construção.
MANIFESTAÇÕES CIVIS
Apesar de tênues, manifestações a favor da cassação e do afastamento de Renan da Presidência pipocaram Brasil afora desde o início do Renangate, como ficou conhecido o escândalo envolvendo o lobista e a pensão da filha. Em Londrina, ações esparsas repudiaram o peemedebista. Na enciclopéia virtual Wikipédia, por exemplo, os administradores do site tiveram de restringir o acesso a edições do conteúdo devido a atitudes de vandalismo contra o verbete Renan.
''Sinceramente, não vejo tantas manifestações assim. Vejo setores da oposição ou de partidos mais radicais querendo iniciar movimentos que nada têm de populares. Ninguém conseguiu reunir mais que 20 ou 30 pessoas e sabe por quê? Porque tenho me defendido, sem falta modéstia, com galhardia'', declarou, por escrito, para completar: ''Mas muita gente confunde o desgaste das instituições com um desgaste de imagem de seus presidentes. A sociedade está em crise com os políticos em geral. Isso não é um fenômeno brasileiro, é um fenômeno internacional. As manifestações não são contra Renan Calheiros. Elas são contra as desigualdades, contra o sofrimento por que passam os brasileiros. Uma pesquisa recente nos EUA apurou que apenas 11% da população norte-americana apóia o Senado lá. Acredito que nosso Senado aqui tem muito mais apoio. O Parlamento é a caixa de ressonância da sociedade e a sociedade quer ver o país crescer, quer ver seu salário aumentar, quer moradia, quer não passar fome'', discursou.
LULA E REQUIÃO
Ao mesmo tempo em que sustenta não ter havido ''atuação de oposição ou de governo'', e que a relação com Lula ''é institucional'', Renan não poupou elogios à atuação do presidente da República, que o apoiou, em fevereiro passado, na reeleição à Mesa. Disse ter conversado com o petista esta semana, reservadamente, e salientou: ''Lula foi sempre muito correto comigo e chegou a dar várias declarações de apoio a mim, neste processo. Agora, somos chefes de dois Poderes da República, independentes e harmônicos. E minha relação pessoal com o presidente sempre foi a melhor possível'', encerrou.
Já a respeito do governador Roberto Requião, de atuação discreta no transcorrer do escândalo - ambos são companheiros de partido, e ex-colegas de Senado -, Renan resumiu: ''Nossa convivência no Senado sempre foi cordial. Conversamos sempre muito e ele tem sido um ótimo aliado nas questões partidárias. Tenho procurado ajudar o estado do Paraná aqui de Brasília porque o Senado é a Casa da Federação'', comentou, com um aviso: ''Acho que ele é um dos nomes do partido nas eleições presidenciais de 2010, mas os assuntos do Senado são do Senado e devem ser decididos aqui dentro''.

mockup