Uma das testemunhas-chave da medida cautelar proposta ontem pelo Ministério Público, o caseiro João Bosco, confirmou que fazia os serviços bancários do escritório do deputado José Janene. A entrevista foi concedida à Rádio CBN de Londrina, em junho, logo após um dos depoimentos prestados aos promotores. A gravação foi obtida ontem pela Folha.
Demonstrando nervosismo, João Bosco disse que movimentou mais de R$ 18 milhões. Parte desse dinheiro teria sido utilizado na campanha eleitoral do próprio Janene, em 98. ‘‘A campanha política necessita de dinheiro, e não é pouco dinheiro, é muito dinheiro. Esse dinheiro tem que ser sacado no banco e trazido camuflado para o escritório para se fazer os pagamentos de contas’’, relatou.
Ainda segundo Bosco, as principais responsáveis pela movimentação eram Stael Fernanda Rodrigues Lima, esposa do deputado, e Rosa Alice Valente, que seria funcionária do escritório político. Ele acrescentou que outros funcionários do escritório também pediam para ele trocar cheques.
Com medo de represálias, o caseiro não quis revelar os nomes das pessoas que teriam emitido os cheques. Ele acrescentou que chegou a ser preso em flagrante, dentro de um banco, mas não quis detalhar o motivo nem quem teria feito a detenção.
Além de Bosco, uma das empresas citadas na medida cautelar proposta ontem pelo MP, a Mercoluz, tem estreitas relações com Janene. A empresa está instalada num imóvel na Rua Fernando de Noronha, área central de Londrina. O prédio foi registrado em maio de 98 no nome de Stael Fernanda e Danielle Kemmer Janene, mulher e filha do deputado. Segundo uma certidão do cartório do 1º Ofício, o próprio Janene tem direito ao usufruto do imóvel. O local ainda hoje serve para guardar veículos de campanha do deputado.
No mesmo endereço da Mercoluz funcionou a empresa Eletrojan, também de instalação elétrica e que pertenceu a Janene. Além disso, os sócios-proprietários da Mercoluz, Antonio Alcântara Filho (que consta na medida proposta ontem) e o engenheiro elétrico Luiz Yutaka Fukushigue, foram funcionários de Janene na Eletrojan durante vários anos.
Em entrevista à Folha, em dezembro de 99, Janene negou qualquer envolvimento com a Mercoluz. Disse apenas que alugou o imóvel para a empresa; confirmou que os atuais donos são seus ex-funcionários; e que ‘‘eventualmente’’ guarda guarda no barracão da Mercoluz um caminhão que usa para campanha política. Ontem, o deputado reafirmou as declarações. ‘‘Tenho essa liberdade (de guardar o veículo) porque conheço essas pessoas há 20 anos.’’
A Mercoluz venceu oito licitações entre o final de 98 e primeiro semestre de 99 e recebeu pelos serviços R$ 625,3 mil. Segundo os promotores, apenas ‘‘parte’’ dos serviços foram realizados. (Colaborou L.H.)

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