Casal admite 'laranjas', mas nega lavagem de dinheiro
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quarta-feira, 19 de outubro de 2016
Loriane Comeli<br>Reportagem Local 
O artista plástico Sarquis Sâmara e sua mulher, a arquiteta Marilucia Dal Ross Sâmara, admitiram ontem a prática de crimes de falsidade ideológica ao registrar empresas em nome de "laranjas", mas negaram ter contribuído para o esquema de lavagem de dinheiro do auditor José Luiz Favoreto Pereira, ex-delegado da Receita Estadual de Londrina. O casal foi interrogado pelo juiz da 3ª Vara Criminal, Juliano Nanuncio, no processo relativo à terceira fase da Operação Publicano.
Amigos íntimos do auditor Luiz Antonio de Souza, também réu processo, eles trocaram abraço afetuoso com o principal delator do esquema, que segue preso desde janeiro de 2015, e acompanha as audiências sob escolta da Polícia Militar.
Primeira a ser ouvida, Marilucia disse que ela era a principal responsável pelo gerenciamento das empresas e que o marido cuidava da produção, já que é artista plástico internacionalmente conhecido principalmente pelas esculturas e objetos em alumínio. Segundo o Ministério Público (MP), eles têm duas empresas em seus nomes e pelo menos outras três em nome de "laranjas".
Segundo Marilucia, a ideia de usar o nome de "laranja" para abrir uma segunda empresa, em 2010, ocorreu em razão da derrocada financeira da primeira empresa do casal, a Aluminiun. Tudo o que ganhavam acabava se perdendo em juros bancários. "Um consultor amigo nosso nos aconselhou a abrir outra empresa em nome de outra pessoa."
A pessoa escolhida foi Ivonete Pereira Meireles Marinho, que trabalhou durante muitos anos como empregada doméstica do casal, e, agora, tornou-se também ré no processo. "Eu fiz na confiança, me sentia parte da família", disse Ivonete, que também foi interrogada ontem.
Antes do processo, ela trabalhava no setor de empacotamento da empresa que está em seu nome. Após a Publicano 3, devido à ordem judicial de não manter contato com os outros réus, não vai mais ao trabalho, mas recebe o salário mensalmente, informou. Segundo Sarquis, a Ivonete ME continua ativa.
Em nome da empresa Ivonete Marinho ME foram realizadas várias transações consideradas ilegais e que, na avaliação do MP, conforme a denúncia, teriam auxiliado na lavagem de dinheiro obtido por meio de atos de corrupção por Favoreto.
O MP afirma que a Ivonete ME auxiliou na lavagem de R$ 442 mil, montante que foi depositado pela empresa na conta da PF&PJ, empresa de fachada registrada em nome do irmão e da cunhada de Favoreto, mas que pertenceria ao auditor. Parte do valor R$ 179 mil correspondia a notas fiscais frias emitidas pela PF&PJ para a Ivonete ME.
Marilucia, entretanto, disse que não foi lavagem de dinheiro, mas, sim, o pagamento de empréstimos feitos por Luiz Antonio de Souza, no valor de R$ 300 mil, e de Favoreto, também no mesmo valor, ambos em 2012. Os R$ 600 mil teriam servido para desembaraçar e pagar produtos importados pelas empresas do casal.
Sobre Favoreto, Marilúcia disse que foi Souza quem intermediou o empréstimo e que somente soube quem era seu benfeitor em uma festa, em 2014, quando o casal foi apresentado a Favoreto por Souza. "Este é o amigo que lhes emprestou o dinheiro", teria dito Souza. Sarquis, segundo suas próprias palavras, teria agradecido: "Obrigado pela confiança".
Sobre a presença de notas fiscais da PF&PJ na contabilidade da Ivonete ME, ela disse que chegou a perguntar a Luiz Antonio de que se tratava, e ele teria respondido: "Não se preocupe". Não acrescentou outras explicações, inclusive disse não saber se foram ou não escrituradas. No entanto, segundo o MP, foram, de fato, escrituradas.
O casal também usou o nome da empregada doméstica e da filha dela para abrir outra empresa, a Marinho e Marinho. Marilúcia e Sarquis disseram que o objetivo era obter empréstimo bancário para capital de giro. Novamente, a empregada confirmou a versão do casal, afirmando que prestou tal ajuda de livre e espontânea vontade. "Meu intuito foi somente ajudar."
Outra empresa em nome de um sócio "laranja" foi usada para registrar um veículo BMW que Sarquis comprou do irmão de Favoreto por R$ 160 mil, episódio, que segundo o MP, também serviu para lavar dinheiro.
"Eu nem sabia que era crime registrar empresa em nome de outros. Tenho vários amigos que fazem isso", afirmou o artista plástico ao juiz. "Nunca imaginei que era um crime tão bárbaro", lembrando que em outubro do ano passado foi preso em Sorocaba (SP) e permaneceu detido por 70 dias.
Na denúncia, o MP assegura que o objetivo de tantas empresas em nome de "laranjas" também era a sonegação fiscal, com base, principalmente, no depoimento do contador Hederson Bueno, irmão do auditor Marco Antonio Bueno, um dos implicados no esquema. Bueno chegou a firmar acordo de delação premiada, mas, voltou atrás, negando completamente a versão informada ao MP na fase de investigação.


