Cartório era usado para lavar dinheiro
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terça-feira, 02 de março de 2004
Andréa Lombardo<br> Equipe da Folha 
Curitiba - O Núcleo de Repressão a Crimes Econômicos (Nurce), órgão da Polícia Civil do Estado, acredita estar prestes a desmantelar uma quadrilha, com possíveis ramificações internacionais, que se utiliza de cartórios no Paraná para fazer lavagem de dinheiro e outras operações ilegais. A prisão do ex-cartorário Everaldo Josauro Prestes Cordeiro, há 21 dias, e a apreensão de vários documentos falsificados é que levaram a polícia a suspeitar da existência de uma organização criminosa. Entre eles, estão documentos de cerca de 65 transações imobiliárias com empresas das Ilhas Virgens Britânicas e Cayamann, conhecidas como paraísos fiscais, no valor de US$ 10 milhões.
Cordeiro tinha a concessão de um cartório no Distrito de Calógeras, município de Arapoti (149 quilômetros ao sul de Jacarezinho). De acordo com o delegado do Nurce, Sérgio Inácio Sirino, foram apreendidos na casa de Cordeiro uma pilha de documentos oficiais em branco como certidões de nascimento e de óbito, carimbos de autenticidade, livros de registro públicos clonados ou adulterados, documentações de pessoas mortas e de estrangeiros de vários países europeus e árabes, além de computadores, um revólver calibre 32 e cerca de 2 mil pedras de esmeraldas.
A polícia suspeita que, como Cordeiro tinha acesso a essa documentação, usava originais para copiar assinaturas e produzir outros documentos. Ele emitiria certidões de óbito falsas para retirar benefícios do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) e, inclusive, receber heranças.
O delegado afirmou que as investigações começaram há cerca de 45 dias, depois que uma das supostas vítimas de Cordeiro deu queixa na polícia. Um empresário de Curitiba, segundo Sirino, comprou um terreno em Itapoá, litoral de Santa Catarina, e o imóvel não pertenceria a quem lhe vendeu.
Sirino garante que há envolvimento de mais pessoas, inclusive de Curitiba, mas não revelou nomes e nem detalhes das supostas operações de lavagem de dinheiro e sonegação fiscal.
O advogado do ex-cartorário, Edson Stadler, disse que Cordeiro foi enganado, pois a pessoa que pediu a lavratura da escritura pública do terreno (segundo ele seria em Guaratuba) apresentou uma procuração falsa. O advogado garante que as acusações de evasão fiscal e outras operações fraudulentas não procedem. ''Estão fantasiando, hipervalorizando. Ele pode ter seus pecados, mas eles não são tão capitais como querem lhe imputar'', declarou.
Stadler afirmou, ainda, que a situação financeira de Cordeiro, com parcelas atrasadas de seus carros e da casa não são indício de que ele teria dinheiro guardado em paraísos fiscais. O advogado admitiu, no entanto, que seu cliente teve a concessão do cartório cancelada pelo Órgão Especial do Tribunal de Justiça (TJ) por causa de problemas ''similares'' com a emissão de certidões. Cordeiro foi condenado em dois processos. Assim que receber o relatório do Nurce, Stadler disse que vai entrar com pedido de habeas corpus.


