Cartas Paranaenses - Prezado empreiteiro Ciccilio*,
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sábado, 02 de abril de 2005
RUTH BOLOGNESE 
Mesmo para o empreiteiro mais poderoso da história do Paraná, que é o Sr, quando se trata dos mais pobres, é preciso exercer a mansidão. E até a delicadeza. Porque eles lavam os cabelos com sabonete Gessy, Dr. Ciccílio, carregam pacotes grandes pelas ruas, usam sapatos sem grife e de avião só conhecem a barriga, porque olham daqui de baixo. Os pobres trabalham hoje pra comer amanhã e, talvez por isso, têm uma idéia mais concreta, mais imediata de felicidade. Convidado para um churrasco, por exemplo, todo pobre sempre pensa grande: se comer bastante e ainda levar um pouco da carne num embrulho debaixo do braço o fará com alegria incontida de menino. O fato de ter lucrado com a oportunidade provoca no pobre a mesmíssima sensação de plenitude que um empreiteiro, como o Sr., experimenta ao vencer uma grande concorrência pública. É da vida dos pobres cultivar pequenas espertezas.
Por isso, Dr. Ciccílio, quando os caminhoneiros e o povo da região de Paranaguá descobriram que podiam desviar do pedágio da rodovia das Praias, nem pensaram duas vezes. Não era nada pessoal, porque jamais o conheceram, dado ao simples fato que empreiteiros, caminhoneiros e pobres não andam circulando juntos por aí. Todos ficaram muito contentes, isto sim, por tirar proveito de uma situação, obter um lucrozinho de R$10 real e reverter, ao menos uma vez, o caminho oficial, legal, que conduz para empreiteiros, para os mais ricos, todas as benesses. É da vida dos pobres vibrar com pequenas espertezas.
O que chocou todo mundo foi a sua reação, Dr. Ciccílio ao mandar a escavadeira remover céus e terras (mais terra do que céu), cavar um buraco daqueles no meio da estrada, assim, sem mais nem menos, como se o mundo ao redor lhe pertencesse. Foi prepotência demais, até mesmo para um empreiteiro que insiste em cobrar na Justiça algo em torno de R$ 5 bilhões do povo paranaense por conta da construção da Ferrovia Central do Paraná, de Ponta Grossa a Apucarana, base de toda a sua fortuna. Prepotência até mesmo para um empreiteiro que derrubou um governador, Haroldo Leon Peres, natural de Maringá, ao gravar em plena ditadura militar, uma conversa reveladora dos meandros da corrupção na construção civil. É da vida dos ricos, conclui-se, exercer o mando absoluto, prender e arrebentar, cavar buracos em estradinhas vicinais antes, e conversar com os governantes depois.
Talvez, Dr. Ciccílio, sejam estes, tempos distorcidos mesmo. Tão distorcidos que o poder chamado de público, ao não puni-lo por fechar uma estrada por conta própria, passa a impressão que a sua ira é ética e justa. Por ter costas tão largas, um homem passado dos 70 anos, como o Sr., que já deve ter se saciado de quase tudo e pode se dar ao luxo de desobedecer todas as ordens, deveria ao menos respeitar as espertezas dos mais pobres, que tentam escapulir da cobrança do pedágio. É procedimento parecido com o que o Sr. teve a vida inteira, mas de imensurável insignificância. Agora, imagine o Sr. Dr. Ciccílio se os caminhoneiros e os mais pobres tivessem reagido com tal violência e tal prepotência a cada vez que tilintou R$10 real no seu cofre, nos últimos 40 anos, como fruto da sua própria esperteza?
* Ciccilio Rego Almeida é dono da Ecovia, concessionária do Pedágio da estrada das Praias. Há 15 dias mandou cavar um buraco no meio de uma estrada vicinal de 14 kms que caminhoneiros e moradores da região estavam usando para burlar o Pedágio. Foi orientado pelo Governo a tapar o buraco, sem qualquer punição.


