Brasília - Dois dias depois de o ministro José Dirceu (Casa Civil) levantar a idéia de um ''pacto nacional'' pela estabilidade, o governo sofreu ontem um inesperado golpe do PL o partido do vice-presidente, José Alencar , que divulgou uma carta ácida, comparando a situação do País à Grande Depressão dos Estados Unidos, nos anos 30. O vice-presidente não só aprovou, como ajudou a elaborar o manifesto, discutindo-o item por item, numa reunião na noite de segunda-feira. ''No passado, crises sociais provocadas pelo alto desemprego nos marcos do velho liberalismo resultaram em opções dramáticas'', adverte o texto do PL. ''Alguns seguiram o caminho fascista e nazista.''
Resultado de um fórum promovido pelo partido dia 10, na Câmara, a carta culpa o governo por haver ''aprofundado'' o modelo econômico do governo anterior, agravando os índices de desemprego e criminalidade. O texto de quatro páginas causou mal-estar no governo muitas palavras e frases usadas foram ditas pelo próprio vice-presidente. Foi Alencar, por exemplo, quem avaliou que o Brasil enfrenta a ''mais grave crise social de sua história'', frase que abre o manifesto.
As críticas foram recebidas pelo governo como mais uma dor de cabeça, a quatro dias do embarque do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para a China e de Alencar assumir o cargo interinamente.
O PL sugere ao governo a adoção de uma política de ''pleno emprego'' para evitar que o País siga um regime totalitário. Seria um plano nos moldes do New Deal, adotado pelo presidente americano Franklin Roosevelt, que tirou os Estados Unidos da crise.
Na avaliação do partido, a política econômica do governo está beneficiando os ''especuladores'' e os ''financistas que se beneficiam da liberdade sem limite dos fluxos de capitais''. Na véspera da reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) que deve decidir se mantém ou altera a taxa básica de juros, a Selic, em 16% ao ano, a carta do PL pede ''o controle de capitais de curto prazo'' e uma ''redução drástica'' dos juros.
''A economia política que estamos propondo é a que prometemos na campanha eleitoral: um deslocamento do eixo da acumulação no capitalismo no sistema financeiro especulativo para o sistema produtivo'', prossegue. Segundo o PL, para iniciar o programa de recuperação ''basta a redução do superávit primário, que se situa em R$ 70 bilhões.''
Apesar da dureza dos termos, a carta termina assegurando que o PL é fiel ao presidente Lula e o governo contará com o apoio de toda a sociedade para evitar a ''sabotagem'' à nova política econômica sugerida.
Mais tarde, em entrevista, o presidente do PL, Waldemar da Costa Neto (SP), que assina o manifesto, acusou o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, de ser o ''principal sabotador'' do País. Segundo ele, Meirelles ''está do outro lado do muro''. ''Ele só faz ser banqueiro. Não tinha de estar empregado no Banco Central, mas no Itaú ou no Bradesco.''
Costa Neto que confirmou ter estado com Alencar na véspera, para discutir a carta reiterou que o PL não vai romper com a base do governo ''em hipótese nenhuma'' e continua apoiando o governo Lula.

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