Arquivo FolhaRetóricaFHC: ‘A cobrança só deleita quem não conhece o processo histórico. Para bem governar é preciso saber’’O presidente Fernando Henrique Cardoso usou a aula inaugural da Universidade Sarah de Pós-Graduação em Ciências da Reabilitação para responder indiretamente às acusações de fisiologismo que recebeu pela montagem do novo ministério.
Em linguagem acadêmica, o presidente deu a entender que as cobranças da imprensa e de partidos políticos insatisfeitos o incomodaram, mas não o preocupam tanto. ‘‘A cobrança só deleita quem não conhece o processo histórico’’, afirmou, num discurso no qual disse, mais uma vez, que os políticos são impedidos de dizer tudo o que sabem.
‘‘Quantas vezes o político é acusado de ter feito o que não fez?; mas, muitas vezes, mesmo acusado de ter feito o que não fez, ele se cala porque ele tem de pensar: eu não fiz, mas será que, ao tomar tal e tal decisão, eu não criei a possibilidade que outro fizesse?; e, portanto, sou responsável’’, afirmou para uma platéia de cerca de 200 médicos.
O presidente disse que a política é o reino do desconhecido, mas, no dia-a-dia, é pura repetição. ‘‘Para bem governar, é preciso saber’’, afirmou, indicando que a verdadeira chave que permite a alguém avançar é a imaginação. ‘‘Mas se a pessoa - mesmo na academia, mesmo na política, tiver um conhecimento enorme, for capaz de conhecer todas as relações entre o poder e o saber - não for, num dado momento, bafejada por um raio, que de repente lhe ocorre, não muda nada.
Fernando Henrique, convidado pelo cirurgião-chefe da Rede Sarah, Aloysio Campos da Paz, para falar sobre Conhecimento e Poder na aula inaugural da pós-graduação da instituição, sentiu o gosto de voltar às salas da universidade. Ele disse que teve ousadia de aceitar o convite por ser um frequentador do Sarah como paciente com pequenos problemas de coluna, e porque, no passado, pertenceu ao quadro de conselheiros da rede. O presidente apareceu em companhia do presidente do Senado, Antônio Carlos Magalhães (PFL-BA), e do pré-candidato a governador da Bahia e líder do governo na Câmara, Luís Eduardo Magalhães (PFL).
O presidente fez um pronunciamento de 45 minutos recheado de citações de inúmeros pensadores e filósofos, clássicos e contemporâneos (Karl Marx, Karl Mannhein, Michel Focault, Aristóteles, entre outros). Mas discorreu bom tempo sobre os conceitos defendidos pelo alemão Max Weber sobre as éticas da convicção e da responsabilidade. ‘‘Não se pode pedir ao profeta que ele se preocupe com o modo de chegar aos resultados; não se pode dizer ao pregador, no púlpito, que faça outra coisa que não seja revelar a verdade, segundo lhe pareça’’, disse, introduzindo exemplos sobre a ética da convicção. Logo em seguida, lembrou que Weber diria que essa não é a posição do político. ‘‘Ele terá de medir sempre as consequências de sua ação; ele tem uma ética chamada por Weber de ética da responsabilidade.
Fernando Henrique insistiu que ‘‘não basta acreditar, não basta estar convencido e proclamar objetivos’’. Segundo ele, é preciso construir os caminhos para que os objetivos sejam atingidos. ‘‘A cada passo, tem de ter uma reflexão sobre as consequências das alianças feitas, das escolhas feitas, das decisões tomadas’’, disse. O político, continuou, não pode, a cada instante, no púlpito, proclamar a verdade.
‘‘O homem de Estado não pode dizer tudo o que sabe sob pena de, ao proclamar, prejudicar a Nação e o povo’’, justificou o presidente. ‘‘O homem político com ‘P’ maiúsculo mede as consequências’’, repetiu. Mesmo assim, afirma o presidente, o político assumirá responsabilidade daquilo pelo qual pessoalmente não é responsável. O presidente observou que há muitas complicações no jogo do saber e o poder. ‘‘Talvez, exerçam com mais felicidade o poder aqueles que não sabem; mas, certamente, com menos capacidade de ação do que aqueles que sabem’’, observou, e fez um alerta: ‘‘Para bem governar é preciso saber, e quem sabe pode. Segundo o presidente, ‘‘o exercício da política, para uns, será um tormento; para os que têm força interior e capacidade intelectual, é um desafio’’.

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