A imagem do presidente sul-africano, Nelson Mandela, 79 anos, símbolo da luta contra o regime de segregação racial, vai ser usada pelo governo brasileiro para reforçar a imagem de presidente estadista e candidato à reeleição de Fernando Henrique Cardoso. No dia 22, os dois se reúnem em Brasília para conversar sobre política externa.
A viagem foi uma bem arquitetada negociação do Itamaraty para que Mandela retribuísse a visita do presidente brasileiro à Africa do Sul antes de FHC terminar o seu mandato. Outra motivação especial: a visita de Mandela ao Brasil é a primeira a um país latino-americano, depois que o sul-africano foi eleito.
Em 1994, na segunda vez que disputou as eleições presidenciais, Luiz Inácio Lula da Silva foi à África do Sul e esteve com Mandela, que havia acabado de assumir a presidência da República. A interpretação da visita foi a de que Lula queria ter sua imagem associada à de Mandela - que conseguiu unir brancos e negros no poder - após 46 anos de apartheid. No Brasil, Lula se mostraria disposto a desfazer a imagem de radical. Do Brasil, Mandela segue para a Argentina, onde participa, como convidado especial, da reunião do Mercosul em Ushuaia.
Para a visita de apenas um dia ao Brasil estão sendo programadas: salva de 21 tiros de canhão, revista de tropas, cerimônias nos palácios do Planalto e do Itamaraty e substituição do tradicional jantar de autoridades por um almoço - evitando assim o desgaste físico de Mandela, como pediram os seus assessores.
A visita de Mandela a qualquer país ou autoridade representa notícias e imagens espalhadas pelo mundo. Os encontros dele com o Papa João Paulo 2º e com o primeiro-ministro britânico, Tony Blair, foram divulgados pela imprensa internacional com destaque pela importância política.
FHC e Mandela já se encontraram outras duas vezes: em novembro de 1996, quando o brasileiro visitou o colega na África do Sul, e recentemente na Suíça. Na visita a Mandela, FHC afirmou que Brasil e África do Sul têm problemas parecidos e citou o esforço dos dois países para consolidar a democracia e melhorar a qualidade da saúde pública. ‘‘Somos vizinhos separados pelo oceano Atlântico’’, disse Mandela, na ocasião. ‘‘Vamos construir uma ponte sobre o Atlântico’’, respondeu FHC.
Desta vez, além de ressaltar os pontos em comum, os dois vão conversar sobre o empenho para consolidar as posições de líderes econômicos: o Brasil no Mercosul e a África do Sul na SADC (bloco econômico que reúne 12 países africanos). FHC e Mandela vão tratar também da Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul, que reúne os países que têm o oceano em comum e defendem a desnuclearização da área.
Os dois dirigentes aproveitarão que Índia e Paquistão realizaram testes nucleares para reafirmar a disposição de paz. Ao chegar ao Brasil, Mandela terá 80 anos, dos quais 27 vividos na prisão, e estará no último período do mandato presidencial. Um dos favoritos para sucedê-lo é o atual vice-presidente Thabo Mbeki. Mandela ganhou projeção internacional ao liderar o processo de negociação que conduziu a maioria negra ao poder na África do Sul.
Em 1993, Mandela recebeu o Prêmio Nobel da Paz e dividiu-o com o então presidente da República africana, Frederik de Klerk, que revogou as leis raciais e libertou-o. Mandela era então o símbolo da luta contra o criticado apartheid.Arquivo FolhaFHC já homenageou Mandela em encontro recente na SuíçaRenata Giraldi
Agência Folha

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