A mágoa entre o presidente Fernando Henrique Cardoso e o governador paulista Mário Covas é mútua. Os dirigentes nacionais do PSDB que trabalham nos bastidores para reaproximar o governador e o próprio partido do presidente temem o impasse. Depois de uma conversa com Fernando Henrique na terça-feira à noite sobre a recusa de Covas à própria reeleição, o presidente do PSDB, senador Teotônio Vilela (AL), relatou à Executiva Nacional que o presidente da República se acha vítima da crise, e não o causador dela.
O encontro resultou da reunião da executiva que analisou o caso paulista e concluiu que a tarefa da reconciliação cabia ao próprio Fernando Henrique. ‘‘Os dois precisam conversar e o gesto tem de partir do presidente’’, resumiu o primeiro vice-presidente do partido, deputado Arnaldo Madeira (SP). O que agrava a situação, segundo o comando tucano, é que Fernando Henrique insiste em reduzir a crise política que envolve governadores e candidatos do partido a uma reação dos executivos contra as perdas financeiras decorrentes da Lei Kandir.
Os sinais de que a crise é partidária ficaram evidentes na reunião da bancada paulista do PSDB ontem de manhã. Os tucanos de São Paulo decidiram marcar uma audiência com o governador, para se solidarizar com o chefe, e outra com o presidente, para protestar contra os maus-tratos ao governador e ao partido. A avaliação predominante entre os presentes foi a de que Covas é um excelente companheiro de partido, mas Fernando Henrique, não.
‘‘Covas não precisa de defesa; quem está mal é o PSDB que ficou tão sem importância a ponto de a gente mesmo se esquecer de que o governo federal é do partido’’, disse a deputada Zulaiê Cobra Ribeiro (PSDB-SP), ao propor que o partido tome atitudes condizentes com ‘‘seu nervosismo, sua raiva, sua gana e sua aflição’’.
Zulaiê lembrou que a insatisfação com o tratamento do governo federal e o ‘‘carinho desnecessário’’ aos adversários não é privilégio de Covas. ‘‘O Almir Gabriel (PA), o Eduardo Azeredo (MG) e o Marcello Alencar (RJ) são governadores tão insatisfeitos quanto o nosso.’ Foi quando o deputado José Aníbal (PSDB-SP) ponderou que o momento é ‘‘crucial’’ para a sobrevivência do partido nas eleições de 1998. ‘‘Ou consolidamos o PSDB agora, como um partido que tem projetos nos Estados e força para tocar o projeto nacional, ou não teremos futuro’’, disse.
Os dirigentes do PSDB e os paulistas apontados como ‘‘amigos comuns’’ de Covas e Fernando Henrique trabalharam ontem duas alternativas para reaproximar presidente e governador: um encontro de Fernando Henrique com todos os governadores do PSDB e uma conversa a sós dos dois no fim de semana, quando o presidente estará em São Paulo para comemorar o aniversário da mulher, Ruth. Até ontem à noite, porém, nada estava acertado.

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