A dois dias da eleição para a presidência da Câmara dos Deputados, o presidente Fernando Henrique Cardoso ainda espera convencer o tucano Wilson Campos (CE) a sair da disputa. Isso permitiria uma vitória mais fácil do líder do PMDB, Michel Temer (SP), que trabalhou intensamente pelo governo garantindo votos dos peemedebistas favoráveis à emenda da reeleição. Ontem, em entrevista concedida nos portões do Palácio Rio Negro, em Petrópolis, Fernando Henrique garantiu que até agora não falou com Campos, mas não descartou que pretende conversar com ele antes da eleição.
Cauteloso, o presidente mediu as palavras para não melindrar as relações com o tucano que insiste em concorrer, mesmo diante dos apelos dos colegas de bancada. ‘‘Se for oportuno eu converso, mas não no sentido de excluí-lo’’, disse. ‘‘Não sou favorável a exclusões: ou a gente convence e as pessoas estão de acordo ou não funciona’’. Ele classificou de ‘‘natural’’ o desejo do deputado Campos de se tornar presidente da Casa. ‘‘Ele tem prestígio, tem 70 e poucos anos e é parlamentar’’.
Para o presidente é preciso olhar as negociações com muita atenção. ‘‘Há fatores políticos que nós vamos conversar’’. Durante a entrevista, Fernando Henrique voltou a declarar claramente que deseja a vitória de Temer. ‘‘Não sou deputado, mas se eu fosse votaria nele’’, afirmou. ‘‘O PMDB teve um comportamente em consonância com o que se está vendo nas ruas’’. Apoiado desde o início pelo Palácio do Planalto, Temer viu sua candidatura ameaçada com o lançamento - à revelia do PSDB - da candidatura Campos.
Ao prometer melhoria na vida parlamentar, como por exemplo a construção de um novo anexo para acomodar melhor os gabinetes, e defender o aumento salarial, Campos acabou ganhando forte apoio dos deputados que compõe o chamado ‘‘baixo clero’’. A candidatura de Temer também sofreu com a decisão do pepebista Prisco Viana (BA) de concorrer. Por defender uma condução da Câmara independente do Planalto, Prisco acabou conquistando votos da maioria dos deputados de oposição.
Fernando Henrique também descartou a possibilidade de represálias aos senadores do PMDB, que trabalharam contra a aprovação da emenda da reeleição na Câmara, convencendo deputados das bancadas do Pará e de Goiás a não comparecer à votação. ‘‘Isso é coisa que já passou, todos os senadores têm ajudado muito o governo’’, disse. ‘‘Não devemos ficar remoendo o que aconteceu; a gente tem que ver para frente’’.
O presidente garantiu que não está preocupado com as dificuldades para a votação da emenda da reeleição no Senado Federal. ‘‘Vocês podem não acreditar, mas não estou pensando nisso’’, disse. Ele argumentou que o Senado é um orgão ‘‘naturalmente autônomo e independente’’ e que o comportamento dos senadores vai depender da vontade da população. ‘‘Se a população achar que é bom, os senadores vão repetir isso, se não, não’’, comentou.
As negociações para garantir outra vitória do governo continuam. ‘‘Os problemas são difíceis no Brasil, mas com trabalho, com o apoio da população, com convergência de interesses, a gente consegue’’, argumentou. ‘‘No Senado é a mesma coisa’’. Fernando Henrique também voltou a afirmar que quer a aprovação das reformas constitucionais que estão tramitando no Congresso. ‘‘O Brasil precisa de reformas’’, disse. ‘‘Vamos melhorar a administração e a população vai apoiar’’.

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