BRASÍLIA - O presidente Fernando Henrique Cardoso cobrou ontem da cúpula do PMDB coerência e uma definição sobre se o partido quer ou não continuar no governo. Para o presidente, ‘‘não é aceitável que o PMDB se comporte como oposição’’. Na convenção de domingo passado, o partido decidiu que o assunto reeleição só deve ser tratado a partir de 15 de fevereiro, após a eleição das presidências da Câmara e do Senado.
Ao iniciar a reunião no Palácio com os principais dirigentes do partido (à exceção do presidente do PMDB, Paes de Andrade, que não foi convidado), Fernando Henrique perguntou: ‘‘Quero saber de que lado vocês estão: se apóiam ou não o governo.’’ Cardoso chegou a declarar que se sentia traído com o resultado da convenção, ‘‘como se tivesse sido apunhalado pelas costas’’. Segundo relato do porta-voz do governo, Sérgio Amaral, o presidente considerou ‘‘uma pressão inaceitável’’ o resultado da convenção e deixou claro que não admite condicionar o tema da reeleição - para ele uma questão doutrinária - aos interesses partidários envolvidos na escolha dos novos presidentes da Câmara e do Senado. ‘‘O presidente não pode aceitar condicionantes’’, afirmou o porta-voz. A votação da emenda, pela comissão especial, está mantida para hoje, a partir ds 9 horas.
Na reunião estavam presentes os ministros da Justiça, Nélson Jobim, e dos Assuntos Políticos, Luiz Carlos Santos; os senadores José Sarney (AP), Jáder Barbalho (PA), Humberto Lucena (PB), Iris Resende (GO), Ronaldo Cunha Lima (PB) e os deputados Michel Temer (SP), Geddel Vieira Lima (BA), Moreira Franco (RJ), Aloysio Nunes Ferreira (SP), Ronaldo Perim (MG), Henrique Alves (RN) e Eliseu Padilha (RS). Eles ouviram o presidente ler uma nota de seis páginas sobre considerações do governo e pessoais a respeito da convenção do PMDB. A nota foi redigida pelo ministro da Justiça, Nelson Jobim. O teor da nota, porém, não foi divulgado.
‘‘Engana-se quem imagina que reeleição é questão pessoal cuja obtenção vale qualquer preço; tem que se resolver em função de legítimas negociações políticas e não de barganha’’, disse, mais tarde, o porta-voz Sérgio Amaral, resumindo o pensamento governista. De acordo com informação de peemedebistas, Fernando Henrique disse que se a situação no Congresso continuar confusa ele não vê nenhum obstáculo em optar por um plebiscito para saber o que a população acha de sua reeleição.
O senador Antônio Carlos Magalhães (PFL-BA) deu apoio ao presidente: ‘‘Ele (Fernando Henrique) quer que o Congresso decida logo pela reeleição porque esta é a vontade do povo’’, afirmou. ‘‘Se não der, o plebiscito é uma realidade.’’
A tese do plebiscito era discutida ontem por todos os lados do Congresso. O líder do PSDB, José Aníbal (SP), disse que não a desconsidera de jeito nenhum. O autor da emenda da reeleição, Mendonça Filho (PFL-PE), defendia a consulta popular. O indeciso B. Sá (PSDB-PI) proclamava para quem quisesse ouvir: ‘‘O plebiscito é a solução e tira o presidente deste enorme problema.’’
De acordo com o porta-voz, Sérgio Amaral, o PMDB não pensa em deixar o governo. O líder Jáder Barbalho, por exemplo, teria dito no encontro que não vê nenhum motivo para o partido romper com Fernando Henrique. O deputado Antônio Brasil (PMDB-PA), da ala contrária ao governo, disse que não acredita no rompimento. ‘‘Parte do PMDB quer ficar no governo’’, afirmou.

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