Cardoso ameaça recorrer ao Exército
Presidente condena ação de sem-terra, nega pacote fiscal, admite erros e garante que o País não será ‘‘a bola da vez’’
Agência Estado
Agência Estado(Não é permitida a reprodução total ou parcial desta foto dentro ou fora do Brasil)No comandoCardoso, no jardim do Alvorada: ‘‘Não quero ver o Brasil, de novo, num regime em que o presidente tenha de mandar prender’’O presidente Fernando Henrique Cardoso condenou ontem a ação do Movimento dos Sem-Terra (MST) na promoção de saques e ocupação dos bancos. ‘‘Talvez haja quem ache proveitoso - ponham aspas - ter um cadáver’’, disse, no início da entrevista coletiva em que tentou responder às críticas ao governo apontadas nas pesquisas de opinião. A seca no Nordeste foi o tema escolhido pelo presidente para abrir a entrevista nos jardins do Palácio do Planalto. Em torno do assunto, ele concentrou as críticas aos adversários. ‘‘Se quiserem brigar, esperem a campanha eleitoral; mas não utilizem, pelo menos antes dela, aquilo que é do interesse do povo, simplesmente para minar a credibilidade do governo.’
Fernando Henrique lembrou que pode usar as Forças Armadas para manter a ordem constitucional. Segundo ele, promover saques é ‘‘assaltar o interesse do povo’’. E atacou pessoas que estão ‘‘utilizando a fome para fazer onda eleitoral e para criar um clima negativo’’. O presidente salientou que é responsabilidade de todos garantir a manutenção do regime democrático. ‘‘Não quero ver o Brasil, de novo, num regime em que o presidente tenha de mandar prender, mandar o Exército’’, disse. ‘‘É responsabilidade dos que transmitem as informações e dos que são massa de manobra, para fazer de conta que está havendo uma demanda legítima, quando não é.’
Para ele, a atitude do Movimento dos Sem-Terra em ocupar bancos no Paraná se iguala a de um assaltante e deve ser combatida pela polícia. ‘‘Pode usar o pretexto que quiser, mas a forma de atuar está errada e tem que ser tirado de lᒒ, argumentou, acrescentando que cabe à polícia e não ao Exército fazer isso, no que foi considerado um recado aos governadores, responsáveis pelo policiamento nas áreas de tensão.’
Déficit O presidente Fernando Henrique Cardoso disse que não há descontrole no déficit público e que o governo não pensa em fazer um novo pacote fiscal. Segundo o presidente, o aumento do déficit não terá influência no resultado das eleições que acontecerão em quatro meses. Para Fernando Henrique, as taxas de juros, as contas da Previdência e o financiamento das privatizações são responsáveis pelo déficit público. Segundo o presidente, o déficit hoje é maior porque o governo tirou o que chamou de ‘‘esqueleto do armário’’, uma dívida que já existia e, por ser desconhecida, não era contabilizada.
Acrescentou que embora muitos governadores não tivessem alternativa, a privatização promovida nos estados também contribuiu para o aumento do déficit. ‘‘Não se pode transformar esse déficit numa coisa fantasmagórica. Tem que explicar para não dar impressão de que houve aumento.’ De acordo com ele, quando se soma os déficits de 5.507 municípios e dos 27 estados, sob os quais o governo federal não tem comando, se chega ao déficit público. ‘‘É a soma disso tudo que dá o déficit’’, afirmou.
Para o presidente, mesmo com o aumento do déficit público posterior ao ajuste fiscal promovido a partir de novembro, não se pode afirmar que o governo ‘‘aumenta imposto e joga dinheiro fora’’. ‘‘Quando você vai olhar esse déficit do Tesouro, de 1% - déficit primário anunciado em fevereiro - ele é consolidado, não é do governo federal’’, observou, justificando que ‘‘o governo federal teve superávit’’. Fernando Henrique concordou com o ministro da Fazenda, Pedro Malan, de que, se não houver ajuste fiscal, a inflação poderá voltar. ‘‘Dar para trás significa inflação, piora na distribuição de renda, descrédito no exterior, diminuição de investimento e queda de emprego.’
Reformas Fernando Henrique afirmou que o Brasil não vai se conformar em crescer a taxas de três por cento ao ano, e defendeu a necessidade dessa taxa subir para seis ou sete por cento. Ressalvou, no entanto, que isso não será possível sem a aprovação das reformas pelo Congresso. ‘‘Sem as reformas, nós temos dificuldades em baixar as taxas de juros e aumentar a produtividade por causa do sistema tributário.’
Fernando Henrique classificou como ‘‘leitura malévola’’ a interpretação de que se empenhou em aprovar apenas a emenda da reeleição. ‘‘Me empenhei por todas’’, disse. Para ele, as reformas são fundamentais para reduzir as taxas de juros. Acrescentou que os efeitos da diminuição das taxas de juros só vão começar a ocorrer sobre as contas públicas em setembro, porque os títulos que foram vendidos têm prazos para ser resgatados.
‘‘Bola da vez’’ De acordo com o presidente, ‘‘é preciso acabar com essa mania de ser a bola da vez’’. ‘‘O próprio Brasil inventa isso e não há razão’’, declarou. ‘‘Isso aqui não é bola não. Isso aqui é um País que pensa, que atua, que reage e assim vai ser’’.
Fernando Henrique falou das dificuldades enfrentadas por outros países como a Rússia e lembrou as medidas adotadas pela governo, com a chegada da crise em outubro. O presidente comentou que as taxas de juros, que foram elevadas para 42% já foram reduzidas para 21% e que as reservas hoje são de US$ 70 bilhões, US$ 10 bilhões a mais do que quando estourou a crise na Ásia. Segundo ele, os efeitos da diminuição das taxas de juros só vão começar a ocorrer sobre as contas públicas a partir de setembro porque os títulos que são vendidos têm prazos.
O presidente Fernando Henrique Cardoso reconheceu que a taxa de desemprego aumentou e disse que ela só poderá ser combatida indiretamente pelo governo, com ‘‘investimento em certas áreas’’. Ele citou como fundamental o investimento feito pelo governo na agricultura para combater o desemprego.
Mea culpa O presidente Fernando Henrique Cardoso tentou assumir postura de humildade necessária a um candidato. Reconheceu o erro do seu governo para enfrentar, com maior rapidez, o fogo em Roraima e o atendimento aos flagelados da seca no Nordeste. ‘‘Quando eu atuo, mesmo quando eu erro, erro porque não sei, ou porque a minha convicção estava errada, não por má-fé.’
Leia mais sobre a entrevista do presidente na página 8

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