O presidente Fernando Henrique Cardoso vai se afastar das negociações e entendimentos diretos com parlamentares para a aprovação dos projetos de interesse do governo no Congresso. ‘‘O presidente se expôs demais’’, justificou o líder do PSDB na Câmara, Aécio Neves (MG). ‘‘O papel do presidente deve ser afirmativo na defesa das reformas, mas não precisa participar de entendimentos com as bancadas’’, disse.
Segundo Aécio, a negociação caberá aos líderes do governo e de partidos aliados. ‘‘Assim o Executivo não sofre o desgaste diário.’’ Durante o discurso feito quinta-feira, na posse dos ministros Íris Rezende, da Justiça, e Eliseu Padilha, dos Transportes, o presidente enfatizou que não irá mais se desgastar na luta pela aprovação das reformas. Ontem, afirmou que não pretende arrancar ‘‘a fórceps’’ votações no Congresso.
Para aprovar a emenda da reeleição, o presidente recebeu, em dezembro e janeiro, romarias de parlamentares em seu gabinete, inclusive em 28 de janeiro, dia da votação da emenda. Colocada no centro do escândalo da venda dos votos, a bancada do Acre relatou, depois da divulgação das denúncias, pedidos, como obras rodoviárias, feitos a Fernando Henrique. Isso obrigou o Palácio do Planalto a dar explicações detalhadas sobre as audiências do presidente. É esse tipo de desgaste que o PSDB quer evitar, a partir de agora.
Ontem, durante encontro com a bancada de tucanos de Goiás, Fernando Henrique garantiu que irá fortalecer o papel dos líderes. ‘‘O presidente disse que não vê necessidade de sua interferência nas negociações com as bancadas’’, disse o prefeito de Goiânia, Nion Albernaz (PSDB). Irritados com a indicação de Íris Rezende (PMDB) para o Ministério da Justiça, os tucanos goianos foram levados até o presidente por Aécio Neves e pelo presidente nacional do PSDB, senador Teotônio Vilella Filho (AL).
Antecipando o clima que deverá predominar no próximo ano, com as eleições, Fernando Henrique ouviu de Albernaz e dos deputados goianos críticas à ‘‘incoerência’’ do novo ministro. ‘‘Uma semana antes de ser escolhido, ele estava convocando os correligionários a fazer uma frente de oposição ao governo’’, acusou o prefeito.
Mas os tucanos garantiram continuar apoiando o governo na votação das reformas no Congresso. E disseram ter conquistado o apoio do presidente para o lançamento de uma candidatura do PSDB em Goiás. Para Aécio, o saldo do encontro foi positivo. ‘‘Me senti confortável, pois eles afirmaram que o apoio às reformas não é vinculado a este ou aquele cargo.’’

mockup