Brasília - Nos discursos do governo federal sobre a camada de petróleo e gás natural do pré-sal fica clara qual será a postura do Brasil na disputa pelo mercado mundial. A ideia é demonstrar que a imagem do Brasil, ao contrário dos países com grandes reservas de petróleo, está associada a uma segurança política e econômica. ''Num mundo em que grandes economias têm poucas reservas e pequenas economias têm grandes reservas, o Brasil aparece como um diferencial. É um País com um regime político estável, uma das maiores democracias do mundo, com estabilidade institucional e uma economia sofisticada'', afirmou a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, durante um seminário sobre o pré-sal, realizado em Brasília. Para ela, tais características tornam o Brasil ''extremamente atrativo'' para o mercado internacional e com condições de ''definir os termos do negócio''.
Outra vantagem brasileira, no discurso oficial, diz respeito ao conhecimento tecnológico da Petrobras. Até o momento, a atividade de exploração do petróleo se concentrava na camada pós-sal. A descoberta do pré-sal, em 2006, levou a Petrobras a outro caminho que, ao que tudo indica, deve percorrer sozinha. Num dos quatro projetos de lei sobre o marco regulatório do pré-sal está definido que, nos contratos de partilha de produção, a Petrobras será a única operadora. Na prática, significa que, ao conduzir o processo das atividades de exploração, ela terá acesso a informações exclusivas para o desenvolvimento de tecnologias. O item ainda passará pela análise do Congresso Nacional.
Essas características serviram de base para sustentar o tom nacionalista dos discursos feitos pelo governo federal em relação ao pré-sal. Os números da descoberta sustentam o discurso: a estimativa de reserva no pré-sal somente nas áreas Tupi, Iara, Guará e Parque das Baleias varia entre 10,5 bilhões de barris e 16 bilhões de barris. A variação equivale quase a toda reserva provada até agora. Desde a década de 50, quando se criou a Petrobras, até 2008, as reservas provadas significam cerca de 14 bilhões de barris. Significa dizer que, em três anos, se descobriu quase a mesma quantidade de reserva referente a meio século.
Para dar conta da descoberta, a Petrobras já anunciou os primeiros números. Estão previstos investimentos de mais de 100 bilhões de dólares até 2013. A meta é que haja uma produção significativa a partir do pré-sal só em 2017. O plano é atingir naquele ano uma produção de 1 bilhão de barris por dia.
Outro dado que impulsiona o discurso otimista do governo leva em conta a necessidade mundial do petróleo, embora o interesse internacional por fontes alternativas de energia também esteja crescendo. Em 2008, a produção do petróleo no mundo representava 86 milhões de barris por dia. Se até 2030 não ocorrer nenhuma nova descoberta (ignorando o surgimento do pré-sal), a produção atingiria 31 milhões de barris/dia e a demanda global, no mesmo ano, seria de 106 milhões de barris/dia. Ou seja, haveria um déficit de 75 milhões de barris/dia.
- A repórter viajou a Brasília a convite da Petrobras.

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