Carmem Murara
De Curitiba
A inauguração da fábrica Continental – fornecedora de pneus para as montadoras automobilísticas – terminou ontem em bate-boca entre o prefeito de Ponta Grossa, Jocelito Canto (PSDB), e o governador Jaime Lerner (PFL). Os dois trocaram ofensas pessoais e políticas durante a solenidade de descerramento da placa alusiva à unidade industrial. O desentendimento começou com o prefeito, que utilizou seu discurso para cobrar do governador uma presença mais atuante no município. Muito nervoso, Lerner rebateu as críticas e disse nunca ter sido ‘‘tão ofendido em 30 anos de vida pública’’.
A cerimônia foi por água abaixo, diante de olhares de espanto dos presentes. Todos acompanharam atônitos o discurso do prefeito que puxou uma lista de reclamações contra o governo, exigindo desde melhoria nos postos de saúde até a conservação ambiental. ‘‘Ponta Grossa está esquecida. A nossa Vila Velha está abandonada por um governo que teve aqui a sua maior votação’’, disse Canto.
O governador se irritou e ficou vermelho com as críticas. Secretários que acompanharam Lerner chegaram a ficar com medo que ele pudesse passar mal. Mas Lerner transformou sua irritação numa verborragia contra a administração do prefeito. Rebateu todas as acusações e depois confessou a amigos. ‘‘Se não tivesse falado tudo o que pensava no momento, talvez tivesse passado mal’’.
De maneira sutil, Lerner chegou a relembrar o caso em que Canto foi acusado de estuprar a secretária Silvana Felipe, em viagem a São Paulo. ‘‘Quero lembrar que sempre estive ao lado de Ponta Grossa, até mesmo quando o senhor recebeu fortes acusações. Na época, fui aconselhado a não vir ao município, mas mesmo assim estive aqui para inaugurar seis escolas’’, gritava o governador, batendo com uma das mãos sobre a tribuna.
Diante de toda a diretoria da Continental e dos convidados, Lerner cobrava respeito do prefeito. Quando desceu do palanque, os dois ficaram lado a lado e voltaram a discutir. Foram afastados. Lerner foi para uma sala e o prefeito foi embora. Acalmados os ânimos, o governador retornou ao que sobrou do evento para descerrar a placa.
Os convidados e os próprios diretores da fábrica alemã assistiram incrédulos ao episódio. ‘‘Eu não entendo esse País. Como pode um prefeito desacatar desta maneira um governador?’’, perguntava, com forte sotaque alemão, um dos diretores da Continental, que socorreu o governador com um copo de água.
Os diretores da Continental lamentaram o ocorrido. A empresa, que tem sua sede na Alemanha e em outros 47 países, investe R$ 80 milhões em Ponta Grossa para produzir pneus a partir do próximo ano.

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