Candidatos trocam votos por cargos
PUBLICAÇÃO
sábado, 01 de fevereiro de 1997
Agência Estado de Brasília 
Agência EstadoDesabafoPrisco Viana: reclamação contra a interferência do governo na eleição para a presidência da CâmaraA menos de uma semana da eleição pela presidência da Câmara, os salões e corredores da Casa foram cobertos ontem com cartazes dos candidatos e os telefones de seus gabinetes não pararam de funcionar em busca de votos. Os três candidatos vão permanecer em Brasília durante o fim de semana e tentam ainda o apoio de bancadas oferecendo postos na composição da nova Mesa que será escolhida na quarta-feira.
O candidato oficial do governo, o líder do PMDB Michel Temer (SP), debruçou-se ontem no telefone para pedir ajuda aos governadores de seu partido e aliados. Somente durante o almoço, Temer ligou para os governadores peemedebistas Antônio Britto (RS), Garibaldi Alves (RN), Wilson Martins (MS), José Maranhão (PB), Valdir Raupp (RO), Divaldo Suruagy (AL), Mão Santa (PI), Maguito Vilela (GO), e o tucano Tasso Jereissati (CE). Pela manhã, já tinha garantida a presença de Britto e Raupp em Brasília na terça-feira.
Desde quinta-feira, Michel Temer vem se ocupando em ligar para cada um dos 513 deputados para pedir voto e tentar quebrar resistências à sua candidatura. Tudo indica que já temos mais de 300 votos seguros, afirmava ontem. Para se eleger, Temer dependeria de 86% dos votos das três bancadas que formam a aliança PMDB-PFL-PSDB em torno de sua candidatura. Com as defecções detectadas no PFL, PSDB e até no PMDB, o candidato tenta assegurar votos pingados de outros partidos.
Michel Temer chegou a oferecer ao deputado Paulo Paim (PT-RS) um lugar em sua chapa. O PT, com 51 deputados, não fechou posição em torno de um candidato, mas Temer é o que encontra maior rejeição dentro do partido. Dos 51, 40 petistas devem dividir seus votos entre os candidatos Prisco Viana (PPB-BA) e Wilson Campos (PSDB-PE). O PC do B, com 10 deputados, fechou com Prisco Viana. O PTB, com 24, declarou apoio formal ao peemedebista e o PL também pode vir para a conta de Temer. O candidato prepara para hoje o assédio aos dissidentes do PPB de Paulo Maluf, convidados para um café da manhã na residência do deputado Luciano Castro (PSDB-RR) com deputados tucanos.
O apoio explícito do presidente Fernando Henrique Cardoso à candidatura de Temer, com a participação de ministros em sua campanha, foi muito criticado pelos outros dois candidatos. Segundo o deputado Prisco Viana, a interferência do governo na eleição da Câmara é inaceitável e só tem precedentes no regime militar, especificamente nos governos de Castelo Branco, Geisel e Figueiredo. O governo deveria ser corpo estranho nesta eleição, reivindicou. Esta interferência não engrandece o processo, emendou o tucano Wilson Campos, rancoroso por não contar com a isenção prometida a ele pelo próprio presidente, numa conversa entre os dois um dia depois das eleições municipais.
Wilson Campos lembrou ontem que no dia 4 de outubro esteve por duas horas com Fernando Henrique no Palácio da Alvorada, quando o presidente assegurou-lhe que não iria interferir na sucessão da Câmara. Vou me portar no pleito como um estadista, afirmara Fernando Henrique, segundo Campos. O tucano, tido como o maior desafio à eleição de Temer e cuja candidatura é questionada por não ter o aval da liderança do PSDB, sustenta que não há a menor chance de renunciar. Se alguém pedir minha renúncia, eu nem escuto, avisou, antecipando-se a qualquer tentativa de líderes tucanos de convencê-lo a desistir da disputa.
O candidato tucano afirma ter mais de 200 votos garantidos e que terá o apoio de Prisco, ou vice-versa, no segundo turno da eleição.


