A seis dias da eleição para a presidência da Câmara, os dois principais candidatos trocaram insultos ao final do debate promovido pela Rádio CBN. Ao ser provocado pelo candidato pefelista Inocêncio Oliveira (PE) de que queria ganhar no ‘‘tapetão’’, o candidato tucano Aécio Neves (MG) alfinetou: ‘‘A sua biografia poderia ser intitulada de ‘Anatomia de um renegado’’’, ironizou Aécio, alegando que não sabia se respondia ao outrora mais fiel líder do governo ou ao novo líder radical da oposição. ‘‘O senhor ofereceu gasolina e carros à bancada gaúcha’’, retrucou Inocêncio. Depois, ele pediu desculpas ao tucano, responsabilizando sua assessoria pela informação. O debate foi ao ar pela manhã, com a presença também dos outros três candidatos ao cargo, Aloízio Mercadante (PT-SP), Valdemar Costa Neto (PL-SP) e Nelson Marquezelli (PTB-SP).
Durante o programa, de uma hora e quarenta minutos, os cinco candidatos fizeram promessas e apresentaram plataformas de campanha. Como quem vai decidir a eleição serão os próprios parlamentares, Marquezelli propôs novo debate, desta vez na própria Câmara no dia 13, véspera da escolha. ‘‘Esse debate não tem nenhuma interferência na eleição da Câmara’’, admitiu o deputado Aloízio Mercadante.
Disputando os mesmos votos da base governista, Inocêncio e Aécio atacaram um ao outro. Inocêncio acusou Aécio de obstruir as sessões da Câmara, atendendo à estratégia do governo de não correr risco de ver aprovada a proposta de emenda constitucional (PEC) que regulamenta as medidas provisórias. ‘‘Me passa a impressão de que o senhor quer ser o candidato único, do tapetão’’, provocou Inocêncio. ‘‘Ele deixou de sonhar com o PT e está tendo pesadelos comigo’’, rebateu Aécio, que depois cobrou de Inocêncio explicações sobre a acusação de ter oferecido carro e gasolina a deputados da bancada do gaúcha. ‘‘Isso não aconteceu em nenhum momento, de maneira nenhuma’’, afirmou o deputado Darcísio Perondi (PMDB-RS).
As plataformas dos candidatos tinham um ponto em comum: todos se declararam defensores da independência do Parlamento com relação ao governo federal e prometeram levar à votação a PEC que limita a edição de MPs. A proposta está sendo alvo de obstrução das bancadas governistas, incluindo o PSDB, na convocação extraordinária.
Candidato avulso pelo PTB – partido que apóia oficialmente Aécio Neves – o deputado Nelson Marquezelli elogiou não apenas o candidato tucano, como também o candidato do PFL. Inocêncio chegou a perguntar o que o petebista tinha achado de sua gestão na presidência da Câmara, entre 1993 e 1994. ‘‘Pelo que vi, o senhor foi um dos melhores presidentes, mais democrático: até quando tivemos confrontos o senhor agiu corretamente’’, elogiou Marquezelli. Mais tarde, dirigiu-se a Aécio com um carinhoso ‘‘amigo’’, elogiando a proposta do tucano de instalar a comissão de orçamento no início do ano legislativo.
Livre para questionar as promessas de autonomia e independência dos candidatos da base de sustentação do governo, o líder petista Aloízio Mercadante acusou Inocêncio e Aécio de terem responsabilidade direta pela subordinação do Legislativo ao Executivo, citando que 82% das proposições votadas no Congresso durante os seis anos de governo FHC são de iniciativa do Palácio do Planalto. Nesse período, acrescentou o petista, Fernando Henrique editou e reeditou 3.752 medidas provisórias.
‘‘O povo brasileiro está cansado de olhar o Parlamento e não encontrar resposta a seus problemas’’, disse Mercadante. ‘‘O Congresso não pode é continuar tendo um presidente da Câmara que se curva ao Executivo.’’ As críticas de Mercadante foram reforçadas pelo candidato do PL. ‘‘Se a Câmara não trabalha é porque o governo não deixa, e não deixa porque o Congresso não é independente’’, sustentou Valdemar.

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