Os bacharéis dominam estas eleições estaduais e nacionais. Dos 794 candidatos que disputam vagas para cargos eletivos no Paraná, 391 (49,24%) têm o nível superior. Em relação à eleição passada, há quatro anos, o contingente de diplomados era proporcionalmente maior: 53,62% (333) de um total de 621 candidatos. Ainda assim o quadro eleitoral revela a supremacia dos bacharéis em uma sociedade onde apenas 5% da população têm o nível superior. Para os 6,6 milhões de parananeses eleitores fica o alerta de dois cientistas políticos: a escolaridade nem sempre é requisito para qualificar o desempenho dos seus representantes.
Proporcialmente, o quadro da escolaridade entre os candidatos no Paraná não se alterou substancialmente, se comparado com a situação nacional. O levantamento do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) aponta uma queda de 10% na proporção de candidatos ao Congresso Nacional (deputados federais e senadores) com nível superior em relação à eleição de 1998.
Segundo a professora da Universidade Estadual de Londrina (UEL) e doutora em sociologia pela Universidade de São Paulo (USP), Maria José de Rezende, nestes casos ainda é possível observar a prevalência do curso superior. ''Há uma supremacia dos bacharéis desde o século XIX'', explica.
Para Maria José, não se pode tirar elementos reveladores de uma prática democrática com base apenas em dados quantitativos. ''Há parlamentares com baixo índice de instrução como também com nível superior e que não representam os interesses da coletividade'', avalia. Neste caso, a alternativa é avaliar o grau de comprometimento dos parlamentares com os interesses sociais. ''E se houvesse um comprometimento maior, com certeza, se reverteria na melhoria do grau de instrução da população.''
A queda no percentual de candidatos com nível superior não necessariamente corresponde a um possível aumento na representatividade das camadas mais populares nas esferas públicas, segundo o coordenador de história da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e doutor em sociologia pela Universidade de Campinas (Unicamp), Denison de Oliveira. ''Uma maior representatividade popular demandaria, primeiro, no estabelecimento de uma rigorosa proporcionalidade na definição do tamanho da bancada de deputados federais de cada estado no Congresso Nacional, acabando-se com a super-representação do Norte-Nordeste e a sub-representação do Centro-Sul.''
Oliveira considera fundamental também instituir o financiamento público das campanhas eleitorais, como forma de extinguir a desproporção de força econômica entre candidatos ricos e pobres. ''Somente nessas circunstâncias assistiríamos a um crescimento das representação das camadas
populares na política.''
Em época de eleição, a escolaridade tem se tornado inclusive arma tanto para qualificar aqueles candidatos melhor instruídos quanto para desqualificar aqueles que não têm o nível superior.''Esse apelo eleitoral parece mais um exemplo de como se usar a baixa auto-estima do brasileiro contra ele próprio'', diz o sociólogo.
Oliveira explica que o bom funcionamento da democracia passa pela garantia do acesso universal, público e gratuito à educação, aperfeiçomento da capacidade de escolha do eleitor e o acesso a fontes de informações divergentes. ''Seria absurdo exigir escolaridade dos candidatos a qualquer cargo, o que reintroduziria a exclusão dos sem-escola que vigorou quase toda República (1889-1988)'', destaca.

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