Campelo nega ter torturado ex-padre
Arnaldo Galvão Agência Estado
O diretor-geral da Polícia Federal (PF), delegado João Batista Campelo, negou ontem à Comissão de Direitos Humanos (CDH) da Câmara que tenha torturado o ex-padre e professor José Antonio de Magalhães Monteiro. O padre foi ouvido por mim dentro dos melhores critérios de normalidade, afirmou. O delegado confirmou, em tumultuado depoimento de cinco horas, que Monteiro foi preso, algemado e levado a São Luís, distante 400 quilômetros de Urbano Santos (MA). Campelo também disse conhecer o policial federal José Antonio Neri, apontado como o principal torturador de Monteiro.
Os deputados José Genoino (PT-SP) e Rita Camata (PMDB-ES) sugeriram que o delegado renunciasse ao cargo para deixar o governo à vontade com o objetivo de resolver a questão da nomeação. Seria deselegante entregar um cargo para o qual fui convidado pelo presidente; apenas aguardo uma decisão dele, respondeu o delegado.
O deputado Nilmário Miranda (PT-MG), presidente da CDH, informou que recebeu notícia sobre a provável existência de sindicância interna da PF, comandada pelo delegado Dante Nardelli. O objetivo era investigar as acusações de arbitrariedades e torturas na prisão de Monteiro.
Sobre o depoimento de Campelo, Miranda disse ser estranho que ele não tenha se lembrado da existência de uma sindicância interna da PF sobre supostas irregularidades ocorridas na prisão do ex-padre. O delegado não esclareceu nada sobre os fatos que envolveram essa prisão, um caso que o persegue há quase 30 anos.
A sessão foi interrompida por alguns minutos, sob ameaça da saída do delegado. Os deputados governistas, liderados por Helton Rohnelt (PFL-RR), disseram que Campelo já tinha sido condenado, sem oportunidade de defesa, por Miranda.
Quarta-feira, Miranda divulgou posição pessoal contra a nomeação de Campelo. Ele chegou a divulgar um pedido de destituição do delegado ao presidente Fernando Henrique. Ontem ele pediu desculpas pela posição, explicando que sua convicção foi formada até mesmo antes do depoimento de Monteiro. Miranda consultou o processo, arquivado no Superior Tribunal Militar (STM), que absolveu o ex-padre das acusações de atividades subversivas no interior do Maranhão. Segundo ele, uma sentença do juiz Angelo Ratacazzo Júnior, da Auditoria Militar de Fortaleza, reconheceu que houve coações físicas e morais nos depoimentos dos réus.
Campelo foi espontaneamente à Câmara e explicou que a prisão de Monteiro, em 1970, ocorreu por suspeita de atividades subversivas. Ele disse ser inocente, que nunca torturou ou incentivou esses métodos de investigação. Campelo disse que um laudo técnico, assinado por três peritos médicos, negou ter ocorrido tortura. Ele afirmou que as acusações de Monteiro são falsas.
Na subdelegacia que comandei, nunca houve instrumentos de suplício ou pau-de-arara, disse Campelo. Ele afirmou que, em 1970, os policiais e militares tinham o dever de abrir inquéritos para investigar a subversão, sob pena de cometer crime de prevaricação. A Ação Popular (AP) era uma organização política proibida e havia medidas legais que restringiam a liberdade, afirmou o delegado.
Outras sete pessoas ainda serão ouvidas e não há previsão de quando será votado o relatório da CDH sobre as acusações contra Campelo.Diretor-geral da Polícia Federal depõe em sessão tumultuada na Câmara e diz que não renuncia para não ser deselegante com FHC
José Paulo Lacerda/Agência EstadoTudo certoCampelo, ontem no depoimento à Comissão de Direitos Humanos: ex-padre foi ouvido dentro dos critérios de normalidade





