Campelo não resiste e pede demissão
Pressão do passado através de denúncias de tortura limita a três dias a permanência do delegado na direção da PF
Arquivo FolhaCompreensivoCampelo: na carta de exoneração ele diz compreender a grave situação política vivida no País neste momentoAgências
e Redação
O delegado João Batista Campelo enviou ontem ao presidente Fernando Henrique o pedido de demissão da direção-geral da Polícia Federal, depois de ficar apenas três dias no cargo. A Assessoria de Imprensa do Palácio do Planalto informou, no meio da tarde, que o presidente Fernando Henrique Cardoso aceitou o pedido, mas pediu ao delegado que permaneça no cargo até a próxima segunda-feira. A decisão de Campelo de deixar o posto foi comunicada por ele, primeiro, ao ministro-chefe da Casa Militar, general Alberto Cardoso, com quem ele se encontrou ontem pela manhã e a quem entregou a carta com o pedido de demissão.
O general ligou imediatamente para o presidente Fernando Henrique, que se encontra no Rio de Janeiro. O presidente telefonou, em seguida, para o ministro da Justiça, Renan Calheiros, contrário à escolha de Campelo para a direção da Polícia Federal. Calheiros queria no cargo a permanência do diretor interino, Wantuir Jacine, mas o presidente da República atendeu ao desejo do general Cardoso, que preferia o nome de Campelo. O delegado, no entanto, era acusado pelo professor e ex-padre José Magalhães Monteiro, de ter sido torturado nos anos 70, quando chefiava a Polícia Federal no Maranhão.
Esta é a íntegra da carta de demissão dirigida por Campelo a FHC: Ao Excelentíssimo Senhor Presidente da República Federativa do Brasil, Dr. Fernando Henrique Cardoso. Agradeço a Vossa Excelência a confiança que me depositou ao nomear-me diretor-geral da Polícia Federal e, por intermédio desta, peço-lhe minha exoneração do cargo, compreendendo a grave situação política vivida no País neste momento. Cordiais saudações.
Em Lisboa, o presidente do Senado, Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA), admitiu que o governo sai desgastado do episódio Campelo. O presidente nomeou, demitiu, vai nomear outro. Evidentemente isso não fortalece o governo, nomear uma pessoa por 48 horas. Quem nomeia tem que investigar primeiro, disse ACM.
O senador Pedro Simon (PMDB-RS), ao comentar o caso, disse que a decisão de Campelo foi correta, mas lamentou: Foi uma pena ter exposto esse rapaz a um massacre que ele não merecia. Segundo Simon, Campelo jamais deveria ter sido nomeado, e isso só aconteceu por uma falha da Casa Militar, que não levou as informações de que dispunha sobre o caso a FHC. Tenho certeza de que, se tivessem levado essas informações, o presidente não o teria nomeado, declarou o senador.
Simon acrescentou que não tinha dúvidas de que Campelo iria se demitir e que, agora, o presidente da República precisará ser mais cauteloso ao nomear seu substituto. Simon disse que a nomeação de um diretor-geral da Polícia Federal é um assunto que deve ser tratado publicamente apenas pelo presidente da República e pelo ministro da Justiça. Não podem aparecer vetos públicos do chefe da Casa Militar, disse Simon, referindo-se ao fato de o general Alberto Cardoso ter sido contrário à efetivação, proposta pelo ministro Renan Calheiros, do diretor-geral interino da PF, Wantuir Jacine no cargo.
O presidente da Comissão de Direitos Humanos (CDH) da Câmara, Nilmário Miranda (PT-MG), anunciou ontem que vai apresentar, nos próximos dias, projeto de lei tornando obrigatória a sabatina prévia, pelo Senado, de todos os futuros candidatos ao cargo de diretor-geral da Polícia Federal, a exemplo do que acontece com o presidente e os diretores do Banco Central.





