Campelo é problema de FHC, diz Renan
Contrafeito, ministro da Justiça empossa novo diretor da Polícia Federal com discurso de apenas 16 palavras e três frases
Lindauro Gomes/Agência EstadoEm focoO delegado João Batista Campelo, após constrangimento da posse pouco concorrida: acusações serão investigadas
Gerson Camarotti
e Claudia Carneiro
Agência Estado
O ministro da Justiça, Renan Calheiros, jogou para o presidente Fernando Henrique Cardoso toda a responsabilidade sobre as consequências da nomeação do novo diretor da Polícia Federal, João Batista Campelo, empossado ontem à tarde. Numa jogada política para revelar seu desconforto com a escolha de Campelo, feita pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, Renan concedeu uma rápida entrevista à imprensa depois da posse para anunciar que estava determinando a apuração de todas as denúncias contra o diretor da PF. Nunca fiz concessão ao desrespeito aos direitos humanos e não vou fazer agora, sustentou o ministro.
A posse de Campelo foi prestigiada por apenas duas autoridades conhecidas: o senador Romeu Tuma (PFL-SP), ex-diretor-geral da PF, e o ex-senador Walmir Campelo. O discurso de Renan Calheiros sintetizou seu descontentamento por não ter conseguido a nomeação do delegado Wantuir Jacine, que vinha respondendo interinamente pela PF: Emposso o Dr. Campelo, como ministro da Justiça; muito obrigado a todos; está encerrada esta solenidade, limitou-se a dizer o ministro.
Na entrevista ele confirmou que está pedindo investigação de denúncias de que Campelo foi torturador de presos políticos no Maranhão nos anos 70: Estou remetendo todas as denúncias pessoalmente para o doutor José Gregori, secretário de Estado de Direitos Humanos, para que se proceda a investigação; esta secretaria, aliás, foi criada especialmente para este fim, resumiu o ministro, acrescentando apenas que seguia a mesma linha adotada pela presidência da República, que na véspera da posse determinara à Agência Brasileira de Investigação (Abin) a apuração das denúncias.
A posse de Campelo, realizada em poucos minutos, ocorreu num clima de total contrangimento. Renan não chegou a mencionar uma única palavra de boas-vindas ao novo diretor da PF, enquanto um amigo íntimo seu apostava, ao final da solenidade, que são duvidosas as chances de Campelo permanecer por muito tempo no cargo. Quer um quadro mais sintomático do que este, em que o ministro sequer faz cumprimentos ao empossado?, observou esse interlocutor.
Enquanto não começava a solenidade, o lobby a favor de Campelo atuou, como também a pressão de grupos contrários à sua nomeação. A Associação dos Delegados distribuiu nota manifestando sua satisfação pela sábia e patriótica decisão de FHC em manter a nomeação. Na mesma sala, oito deputados da oposição tentavam entregar ao ministro da Justiça um manifesto pedindo o adiamento da posse até que se apurem as denúncias. Pelo menos este protesto cria um certo constrangimento, comentou o deputado Padre Roque (PT-PR), avisando que amanhã (hoje) o ex-padre José Antônio Monteiro será ouvido pela Comissão de Direitos Humanos da Câmara.
O ex-padre é cabo eleitoral do Renan Calheiros e já declarou isso, afirmou o deputado Elton Ronhelt (PFL-RR). José Antônio é hoje professor de filosofia em Maceió, terra do ministro da Justiça. Segundo Ronhelt, o delegado Campelo está muito chateado com essa onda de denúncias principalmente por causa de sua família. A pequena presença de políticos na solenidade foi justificada por Ronhelt: Ele é uma nomeação técnica, não foi apoiado por políticos.





