De um lado, a ausência de uma reforma política efetiva capaz de minar, de vez, práticas nebulosas tanto no financiamento das campanhas quanto nas posteriores prestações de contas à Justiça Eleitoral. De outro, a falta de nomes que possam de fato representar novidades concretas em um cenário político há 16 anos dominado por dois únicos nomes, tanto no Paraná quanto no Governo Federal - afinal, lá se vão oito anos de Roberto Requião (PMDB), em sucessão a outros oito de Jaime Lerner (PSB), e oito anos de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), em substituição a igual período de governo tucano de Fernando Henrique Cardoso. Em meio a essas lacunas, a constatação: dificilmente o pleito de 2010 será marcado por um embate ideologicamente engajado, seja no que se refere a propostas para o eleitor, seja para marcar posições partidárias hoje já não mais tão (ou quase nada) antagônicas entre si. A opinião é de dois analistas políticos ouvidos pela FOLHA, para os quais, ainda que as convenções partidárias aconteçam só em junho, os bastidores dentro e fora do estado já começam a dar sinais do que o cidadão terá pela frente no dia 3 de outubro.
Além da renovação ante os dois mandatos no Alvorada e no Palácio Iguaçu, no caso do paranaese, a eleição deste ano também apontará quem vai assumir pelos próximos quatro anos a Câmara Federal e a Assembleia Legislativa, e, por mais quatro, o Senado. Com José Serra (PSDB) e Dilma Rousseff (PT) polarizando a briga pela vaga de Lula, no Paraná a disputa para suceder Requião tem um componente a mais diante de definições pelos nomes de urna: nome do PDT já desde a campanha de 2006 - a qual perdeu para Requião por pouco mais de 10 mil votos de diferença, em todo o Estado -, o senador Osmar Dias terá pela frente um adversário que o PSDB ainda vai definir, entre o senador Álvaro Dias e o prefeito de Curitiba, Beto Richa.
Para o professor de Ciências Políticas da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR) em Curitiba, Antonio Celso Mendes, o pleito de 2010, antes de não trazer novidades no campo ideológico, também deverá ser marcado por um vazio de mudanças pretendidas com a reforma eleitoral, em comparação ao que se discutia quatro anos atrás.
''Aparentemente nada mudou. A reforma política que tanto desejávamos não veio; o pacotinho da minirreforma (de 2006) não resolve os sérios problemas estruturais nos partidos - porque os políticos ainda fazem dos partidos uma espécie de propriedade particular deles, o povo não tem acesso aos mecanismos de escolha dos candidatos'', definiu o analista, para concluir: ''O resultado é uma repetição de hábitos ruins, porque os vícios não foram eliminados. Basta ver a falta de mecanismos de controle nos financiamentos de campanha e mesmo para se coibir o caixa 2; ainda é muito próximo o intercâmbio entre obras públicas e esses financiamento em época de eleição'', constata.
Na avaliação de Mendes, no Paraná o que ele chama de ''apoio acelerado'' a uma possível candidatura de Beto, ao governo, pode enfrentar obstáculos por conta das alianças que o PSDB venha a firmar, nacionalmente, em torno de Serra. ''O PSDB pode até optar pelo apoio a Osmar, visando a um acerto nacional, ainda que, no fim, um candidato novo com grande potencialidade acabe sendo vítima disso''. Nacionalmente, o cientista acredita na ausência de uma dicotomia esquerda/direita nos discursos pela Presidência da República.
''Depois da crise econômica mundial, essa diferença entre conservador e progressista tendeu a desaparecer, mesmo porque os governos foram chamados a ter quer intervir na crise pra diminuir os efeitos danosos dela'', justifica. ''Diminui o perfil ideologicamente engajado dos candidatos - e o que se espera é que eles estejam engajados mesmo é na solução dos problemas populares''.
''Jogo de xadrez'' - Já o professor de Filosofia Política na Universidade Estadual de Londrina (UEL), Elve Censi, aponta que a falta de definição entre os tucanos paranaenses pode ser decisiva no fortalecimento da candidatura pedetista - a qual, aposta, será ''um palanque razoável'' para Dilma. ''O Osmar conseguiu um patrimônio eleitoral no pleito passado e agora desponta como candidato forte. Resta saber que alianças ele vai agregar'', diz o analista, para quem as mesmas já estão sendo articuladas. ''O apoio do ministro Paulo Bernardo (Planejamento) com o prefeito Barbosa Neto (PDT) já é um sinal, e isso mostra a interligação entre as candidaturas de Osmar e Dilma. E como o Sul é o 'calcanhar de Aquiles' do governo Lula, seria um palanque sólido para o PT, aqui, apoiar o PDT. Ou seja, é essa interligação; esse jogo de xadrez'', afirma. ''Além disso, em que pese o Beto ser o nome do PSDB e de ele se posicionar como herdeiro político do (ex-governador) José Richa, hoje é mais identificado como curitibano - resta saber até que ponto ele tem fôlego para entrar em redutos do interior que hoje pertencem a Alvaro ou Requião, por exemplo. E a forma como o Alvaro vai se posicionar na campanha, caso o prefeito seja o nome ao governo, será decisiva''.
Na disputa nacional, Censi aposta no duelo de biografias entre Serra e Dilma - e na polarização entre ambos. ''O FHC terminou com um desgaste muito grande ante a seu governo e à sua imagem, ao contrário do Lula, que tem diversos indicadores econômicos e sociais para apresentar''. Por outro lado, assim como o analista curitibano, o de Londrina não acredita em dicotomias nos discursos.

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