O Brasil retratado em suas campanhas eleitorais. O estudo é do professor Adolpho Queiroz, da Universidade Metodista de São Paulo, que por meio de um projeto de pesquisa quer resgatar a memória das eleições presidenciais no País. Dos 39 presidentes, 13 já foram estudados. Especialista em marketing político, Queiroz esteve em Londrina participando do seminário promovido pela Associação dos Profissionais de Propagada de Londrina.
O professor relatou vários fatos curiosos e características que se mantêm nas campanhas políticas desde o século XIX. ''Criticamos muito quando o Duda Mendonça mandou o Lula comprar ternos Armani, mas Prudente de Morais, quando fez a campanha dele, encomendou meia dúzia de jaquetões porque dizia que tinha que ter uma boa aparência'', exemplificou. Queiroz revelou ainda outras especificidades de Prudente de Morais. Como não havia comícios na época, o ex-presidente pegava o trem que fazia a linha Santos-Ribeirão Preto e descia a cada estação, juntando pequenos grupos para discursar.
Os meios de transporte nessa fase não eram tão ágeis. Segundo Queiroz, o primeiro candidato a presidente a utilizar avião foi Juscelino Kubitschek. ''As campanhas eram mais longas. Prudente se dava ao luxo de viajar a cavalo por três dias para falar com 200 pessoas'', retratou. Outra faceta da campanha de Prudente, impensável para os dias de hoje, era o costume de escrever cartas pessoais de próprio punho para lideranças políticas pedindo dinheiro e voto. ''Hoje isso seria no mínimo curioso'', completou.
Queiroz analisou que as eleições brasileiras podem ser divididas em cinco ciclos. O primeiro se dá no começo da República, que tinha a tradição oral, da campanha boca-a-boca, com pouquíssima coisa impressa. No fim do século XIX, começa a entrar em cena o jornalismo impresso, que dá outra conotação às eleições. A partir de 1922, com a criação do rádio, os políticos passam a utilizar esse meio para divulgar suas idéias. A mudança em 1950 é mais uma vez provocada pelo surgimento de um veículo de comunicação: a televisão. Começamos a vivenciar programas de entrevistas e debates. A quinta fase começa na década de 90 com o advento da internet que, segundo Queiroz, popularizou as campanhas. ''Ficou mais rápido e barato'', resumiu.
Apesar da modernização, o professor avalia que muitas táticas de campanha são antigas. Ele observou que desde a época de Dom Pedro II já se distribuía brindes. ''D. Pedro II dava jogos de pratos, talheres, bolsas com o símbolo da família real e até jogos de baralho com a cara de D. Pedro para quem visitava o palácio''. A propaganda boca-a-boca é outra característica que se mantém até hoje.
Uma grande mudança no rumo das campanhas aconteceu em 1942 com a criação do Instituto de Pesquisa Ibope. ''As pesquisas viraram um novo referencial de intenção de votos e detecção de problemas'', afirmou Queiroz. Ele destacou que atualmente essa ferramenta se modernizou tanto que em apenas um dia os políticos podem saber os problemas de um determinado local para fazerem seus discursos baseados nos anseios daquele público.
O professor apontou ainda outro marco em termos de marketing político. ''Temos a era antes e depois de Collor''. ''A campanha dele marcou muito porque foi planejada e usou todos os ingredientes para um bom resultado. Depois dessa campanha, houve um nível de profissionalização incrível nessa área'', observou. O professor estimou que nas próximas eleições teremos mais de cinco milhões de candidatos disputando votos nas quase seis mil cidades brasileiras. ''O mercado eleitoral vai movimentar entre R$ 12 e R$ 15 bilhões'', calculou.
Sobre as ferramentas atuais, Queiroz destacou a internet e o telemarketing como grande diferenciais. ''Se você tem 10 pessoas trabalhando no telemarketing, pode falar com mil pessoas por dia'', justificou. Ele frisou também que a população se saturou de campanhas maquiadas e cheias de discurso vazio. ''Quem fizer essa campanha lenga-lenga, dizendo que não ganhou sorvete do pai e beijando criança não vai levar. Essas eleições terão doses de pragmatismo'', previu.

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