Campanha política será obrigatoriamente franciscana
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sábado, 15 de abril de 2006
Janaina Garcia<br>Reportagem Local 
''Nossa campanha é modesta, franciscana: gastamos muita saliva e sola de sapato.'' Em ano eleitoral, é raro o candidato que se furta a soltar a frase para qualificar a própria campanha. A partir deste ano, porém, os concorrentes a uma vaga legislativa (senadores e deputados federais e estaduais) ou executiva (governador e presidente) serão obrigados a adotar na prática medidas que barateiem os custos da propaganda pessoal, sem perder o chamado poder de convencimento junto ao eleitor.
O motivo: boa parte das estratégias de propaganda e marketing foram vedadas em projeto de lei do Senado Federal que altera a legislação eleitoral e reduz drasticamente o tempo de campanha. Práticas até então corriqueiras como a afixação de cartazes em postes de iluminação passam a ser vedadas, sob pena de salgadas multas, e até risco de detenção; o mesmo vale para a boca-de-urna no dia do pleito e a distribuição dos tradicionais brindes com nome e número do sujeito.
Se descumpridas as determinações, o candidato sofrerá no bolso. Se cumpridas, é o setor de publicidade e propaganda que já começa a reclamar do que vem pela frente. A principal queixa é a limitação dos recursos midiáticos, uma vez que poderia prejudicar aqueles que estão no páreo, mas que não têm tanta exposição. Outro ponto é a queda drástica da produção de brindes e mesmo de material impresso, bem como a consequente redução da contratação de mão-de-obra temporária.
Em nota distribuída esta semana, por exemplo, o Sindicato das Empresas de Publicidade Externa do Estado do Paraná (SEPEX/PR) destaca que a nova legislação eleitoral fará com que o setor deixe de empregar pelo menos 40% de funcionários temporários, de modo que 10% acabavam sendo efetivados depois.
''Os faturamentos em períodos eleitorais das empresas aumentam em torno de 30% a 40%'', destaca na nota o presidente da entidade, Romerson Faco, que faz questão de ressaltar: a atividade é ''grande geradora de renda e emprego'', e ainda ''responsável por 70% de uma campanha eleitoral, em cidades com jornal, rádio e televisão, e 100% em cidades que não têm veículos de comunicação''.
O projeto de lei é do senador Jorge Bornhausen (PFL-SC) e, nos últimos dias, teve aprovado pelo Plenário um substitutivo que amplia as limitações à propaganda dos candidatos. Nesse caso, eles não poderão mais fazer propagandas em postes de iluminação, viadutos, passarelas e pontes. Caso contrário, terão de restaurar o bem, e, se não o fizerem, pagar multa de R$ 2 mil a R$ 8 mil.
Em entrevista à Folha, empresários do ramo em Londrina deram diferentes interpretações para as mudanças que vêm por aí. Sócio-diretor da agência Engenho Propaganda, Valduir Pagani comentou que, na verdade, as novas regras ocasionarão impacto negativo a um tipo de profissional, e positivo a outro. ''Vai se exigir muito mais da criatividade, porque, por exemplo, não poderemos mais explorar imagens externas do candidato nos programas'', destacou. No caso da Engenho, ressalvou, quase todos os funcionários necessários para a propaganda externa são temporários. ''Nesses 33 anos da empresa, praticamente só contratamos esse tipo de pessoal para assuntos eleitorais. E, infelizmente, é o que mais vai sofrer com a legislação'', ponderou.
Para o proprietário da Mais Propaganda, Cláudio Osti, ''toda uma cadeia de profissionais será cortada'', apesar de a campanha notoriamente ficar mais barata. Na avaliação dele, contudo, outros pontos negativos poderão ser registrados também a quem terá o nome na cédula eletrônica especialmente quem não é candidato a reeleição, nem pessoa pública.
''Certamente os recursos vedados na legislação eram artifícios para tornar a pessoa mais conhecida. Mas se ela não está diretamente na mídia, como um vereador ou um deputado, por exemplo, a competição fica desigual quando vai ser com um empreário, um líder comunitário ou sindical, ou qualquer outro que não apareça tanto'', explica. Osti também acredita que a propaganda externa não afetará tanto as agências, e sim setores como os de produtores de brindes e afins. ''Mesmo para o processo democrático, são importantes os cabos eleitorais, os outdoors e até os brindes, que nunca são caros, para fixar da mesma forma um ou outro nome. Talvez fosse interessante estabelecer limites, mas não a proibição da forma como foi feita'', defende o empresário.


