Campanha pelas Diretas completa 25 anos
PUBLICAÇÃO
sábado, 19 de abril de 2008
Wanderley Preite Sobrinho<br> Folhapress 
São Paulo - Há 25 anos, o movimento pelas Diretas arrastou uma multidão às ruas. O movimento começou em 1983 e tomou corpo no ano seguinte - 1984. Para alguns parlamentares, o movimento simbolizou a resistência contra a ditadura. Historiadores afirmam que manifestações só aconteceram porque os militares estavam impedidos de reprimi-las.
O historiador e cientista político Octaciano Nogueira, professor da Universidade de Brasília (UnB), diz que as manifestações só foram possíveis porque em outubro de 1978 o então presidente Ernesto Geisel encaminhou a emenda constitucional número 11, que dava os primeiros passos em direção à redemocratização do Brasil.
''A emenda propunha a revogação de todos os Atos Institucionais e acabava com o bipartidarismo'', afirma Nogueira. ''Sem os atos, a repressão perdeu o respaldo legal.''
Com o regime impossibilitado de reprimir opositores e de cassar parlamentares, segundo ele, a organização de manifestações contra a ditadura aconteceria a qualquer momento.
Em 1980, a eleição direta para governador é restabelecida por meio de uma nova emenda, e em 1982 o pleito é realizado. ''Grandes lideranças democráticas ganharam aquelas eleições, como Tancredo Neves, em Minas Gerais, e Franco Monto, em São Paulo'', lembra o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, um dos líderes do movimento. ''A partir de então, o clima mudou. Era natural o desejo de eleger um presidente da República pelo voto direto.''
''Faltava ao Brasil (naquela época) o direito de escolher seu presidente'', diz Nogueira. ''Essa possibilidade gerou no Brasil um sentimento cívico muito forte'', diz o senador Eduardo Suplicy (PT-SP), que na época era deputado federal.
Foi nesse clima que o deputado Dante Martins de Oliveira, falecido em 2006, apresentou uma emenda propondo eleição direta para presidente da República, em março de 1983.
''A campanha das Diretas-Já só foi lançada para forçar a Câmara a votar a 'Emenda Dante de Oliveira', como ela ficou conhecida'', diz Nogueira. A partir de então, uma série de comícios tomou conta do País.
Os comícios
O primeiro grande comício foi realizado na cidade de Abreu e Lima, em Pernambuco, em março de 1983. Em novembro de 1983, cerca de 10 mil pessoas se reuniram na praça Charles Miller, em frente ao estádio do Pacaembu, na zona oeste de São Paulo, para pedir o restabelecimento das eleições diretas no País.
''Este foi o primeiro comício que participei'', diz o senador Eduardo Suplicy. ''Não percebi nenhuma possibilidade de repressão por parte dos militares. O que havia era um entusiasmo muito grande.''
Ele conta que havia uma certa tensão entre os políticos do MDB e do PT, que se revezaram na organização dos primeiros comícios. ''Mas logo as lideranças dos principais partidos se uniram para organizar as manifestações seguintes'', diz o senador.
''Esse comício foi organizado pelo PT e eu fui até lá representando o PMDB'', diz Fernando Henrique. ''Eu só não levei uma vaia dos petistas porque, assim que cheguei, anunciei a morte do Teotônio Vilela, (um dos principais representantes da luta pela democracia).''
A partir de então, as passeatas e comícios ganhavam cada vez mais importância. No dia 25 de janeiro de 1984, um comício na praça da Sé, região central de São Paulo, reuniu de 200 mil a 300 mil pessoas.
''O comício que marca o início do movimento aconteceu em São Paulo dia 25, no aniversário da cidade'', afirma FHC. ''Ninguém esperava tanta gente. Os alto-falantes não eram suficientes para chegar à multidão que tomou a praça. Foi a partir daí que a imprensa começou a divulgar o movimento.''
No Rio, os comícios eram realizados em frente à Igreja da Candelária. Um dos comícios mais importantes foi realizado em abril daquele ano, no Vale do Anhangabaú, centro de São Paulo.
Segundo Nogueira, o número de pessoas que participaram dos comícios no Rio e São Paulo foram inflacionados. No Anhangabaú, por exemplo, havia quem dizia que o comício havia levado mais de 1,5 milhão para o local. ''Como havia um interesse nacional muito grande, cada um dava o número que queria.''
Mas Suplicy afirma de pés juntos que havia mais de 1 milhão de pessoas no Anhangabaú. ''Eu lembro da aglomeração. A estimativa de público foi feita pela polícia militar e pela imprensa. Além disso, o Vale era maior naquela época'', diz.


