Câmara vai apurar mortes de JK e Jango


Edinelson Alves 
Especial para a Folha
Edinelson Alves Especial para a Folha

Em meados da década de 70, as ditaduras militares do Cone Sul uniram forças para combater os movimentos de esquerda que eclodiam no Brasil, Chile, Argentina, Paraguai, Uruguai e Bolívia. A ação conjunta foi batizada de ‘‘Operação Condor’’ e a CIA (serviço secreto americano) é acusada de ser a responsável pela coordenação das operações. As circunstâncias estranhas e suspeitas das mortes dos ex-presidentes Juscelino Kubitschek e João Goulart, e do ex-governador do Rio de Janeiro (à época, Guanabara), Carlos Lacerda, além de outras lideranças políticas de países vizinhos, ainda não foram esclarecidas. Assim como a ação militar foi conjunta na região, a investigação também pode unir parlamentares, juízes e grupos de direitos humanos do Cone Sul.
Para abrir os arquivos secretos das Forças Armadas, onde poderá ser encontrada ao menos parte das respostas que ainda incomodam a história recente da América Latina, a Comissão de Direitos Humanos da Câmara Federal vai ouvir na quarta-feira, durante audiência pública, pessoas que podem contribuir para o esclarecimento da Operação Condor, tanto em território brasileiros como nos países vizinhos. Foram convidados o ex-governador Leonel Brizola, o juiz argentino Claudio Bonadio, o juiz paraguaio Luiz Benitez Riera, Jair Krischke (presidente do Movimento de Justiça e Direitos Humanos de Porto Alegre) e ainda o jornalista Nilson Cezar Mariano, autor do livro ‘‘Operación Cóndor - Terrorismo de Estado en el Cone Sur’’.
O presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara, deputado Marcos Rolim (PT-RS), considera a iniciativa da Câmara um passo histórico porque é a primeira vez que esses fatos serão investigados oficialmente. ‘‘Esperamos, através da Comissão, obter documentos e informações importantes que possam contribuir para esclarecer essa questão histórica’’, observou. ‘‘Um outro objetivo é participar desse movimento internacional, já que outros países também estão buscando respostas. Queremos saber como se deu essas relações militares e também apurar responsabilidades pelas ações praticadas.’’
Assim como teve participação decisiva na constituição e votação do projeto de lei que prevê indenização aos familiares dos mortos e desaparecidos durante a ditadura militar e como contribuiu para a reabertura do caso Riocentro, o deputado gaúcho acredita que a Comissão de Direitos Humanos conseguirá lançar luzes sobre as ações obscuras da Operação Condor. ‘‘Vamos em busca de fatos novos para desenterrar esse passado. A sociedade e principalmente os dos desaparecidos anseiam pela revelação da verdade’’, afirmou.
Para Rolim, os países vizinhos também buscam elucidar mortes e ações militares ainda não esclarecidas. O juiz argentino, Cláudio Bonadio, por exemplo, obteve do Supremo Tribunal brasileiro a autorização para investigar no Brasil a Operação Condor. O juiz paraguaio, Luiz Benitez Riera, encontrou e apreendeu o mais rico dossiê a respeito da cooperação militar no Cone Sul, o qual inclui o envolvimento de brasileiros.
O general Alberto Cardoso, ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional, declarou que sua equipe está levantando nos arquivos das Forças Armadas detalhes das ações daquele período. Ele informou não ter recebido nenhum pedido oficial, mas assegurou que dará todo subsídio que for solicitado por membros do judiciário. Ele disse ainda desconhecer a ação conjunta dos militares no Cone Sul, mas o ex-capitão e hoje deputado federal pelo PPB do Rio de Janeiro, Jair Bolsonaro, garantiu à Folha que as forças armadas do Brasil e países vizinhos agiam conjuntamente, sob a coordenação dos americanos.

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