Gerson Camarotti
Agência Estado
De Brasília
O governo deverá enfrentar uma forte resistência da Câmara dos Deputados para aprovar o aumento da tributação sobre as empresas e o corte orçamentário de R$ 1,2 bilhão para compensar as perdas impostas pela extinção da contribuição previdenciária dos servidores inativos e o aumento da cobrança dos funcionários da ativa. A reação poderá surpreender o Planalto.
Segundo pesquisa concluída na última sexta-feira pelo Instituto Brasileiro de Estudos Políticos (Ibep), 56% dos deputados defendem que a renegociação das metas fiscais acordadas com o FMI é o melhor caminho a ser tomado pelo governo para cobrir o prejuízo de R$ 2,4 bilhões provocado com a derrota no STF.
Este número surpreende ainda mais quando se verifica que no PFL, partido mais fiel ao governo, esta defesa é feita por nada menos que 61% dos parlamentares, um número que só é inferior ao do PT. Nessa mesma pesquisa, apenas 4% defenderam o aumento de impostos como solução emergencial e 23% defenderam o corte de gastos, as duas medidas apresentadas na semana passada pelo governo.
‘‘O resultado desse levantamento mostra que o clima de opinião dos parlamentares pode determinar uma grande pressão no governo, inclusive fazendo o Executivo a mudar sua posição’’, avalia o cientista político Walder de Góes, coordenador da pesquisa.
O Ibep ouviu na semana passada 150 deputados divididos igualmente por Estados e partidos, o que permite uma precisão de acerto de 100% do universo total dos 513 deputados.
Outro dado interessante da pesquisa é que 52% dos integrantes da base (PFL, PSDB, PMDB, PPB, PTB) defendem a revisão das metas do FMI, enquanto entre os parlamentares de oposição esse número sobe para 67%. ‘‘É muito alto o número de aliados que defendem a revisão de metas’’, diz Góes.
Na Câmara, nem mesmo os líderes aliados escondem o desconforto com a opção apresentada pela equipe econômica para manter o ajuste fiscal de R$ 28 bilhões em 1999. ‘‘O governo está fora de órbita’’, dispara o vice-líder do PFL na Câmara, deputado Pauderney Avelino (AM). ‘‘Não precisa de pesquisa para identificar que ninguém mais suporta este aperto’’, comenta. ‘‘O Brasil real está asfixiado’’.
Ele lembra que o País fará um grande sacrifício para atingir as metas do FMI. Pauderney lembra que se o FMI está flexibilizando sua posição está na hora do Brasil reavaliar as metas. ‘‘Isso nos daria um grande alívio’’.
Para o presidente nacional do PMDB, senador Jáder Barbalho (PA), o resultado da pesquisa não significa falta de sintonia entre base e governo. ‘‘Os fatos recentes fazem com que as pessoas reflitam’’, observa. Ele lembra que o apoio que o Executivo recebeu no início do ano era o reflexo da grande crise que o País enfrentava naquele momento. ‘‘Agora as coisas mudaram’’, comenta.
O líder do PSDB na Câmara, deputado Aécio Neves (MG), é ainda mais enfático. ‘‘A base está muito preocupada com o desgaste econômico’’, avisa. Para ele, não é possível aprovar mais nada que prejudique o contribuinte.
Mas no Executivo este assunto continua sendo um tabu. ‘‘É preciso manter as metas acertadas com o FMI’’, defende o líder do governo na Câmara, deputado Arthur Virgílio Neto (PSDB- AM).

mockup