Câmara engavetou denúncia do JB
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segunda-feira, 06 de junho de 2005
Fábio Zanini<br> Folhapress 
BRASÍLIA - A Câmara dos Deputados teve a chance de investigar as denúncias de pagamento de ''mesada'' no ano passado, mas acabou não o fazendo. A investigação morreu em apenas 12 dias, sem que um único depoimento fosse tomado ou algum documento examinado. Em 24 de setembro do ano passado, o ''Jornal do Brasil'' publicou reportagem denunciando o esquema de pagamento do ''mensalão'' a partir de informações que teriam sido passadas pelo deputado federal fluminense Miro Teixeira, então no PPS, hoje no PT.
Miro teria estimulado os deputados a denunciarem o fato ao presidente, mas nenhum deles teve coragem de denunciar o esquema. O próprio Miro alegava não ter provas de sua existência: ''Afirmei e reafirmo agora, que eu, ou qualquer outro parlamentar que tivesse provas do que vem sendo chamado de mensalão, teria o dever de levar a denúncia ao presidente'', teria dito Miro na época.
No mesmo dia, o então presidente da Câmara dos Deputados, João Paulo Cunha (PT-SP), comunicou que enviaria determinação ao corregedor-geral da Casa na época, Luiz Piauhylino (PDT-PE), de que investigasse o fato.
Ex-ministro das Comunicações de Luiz Inácio Lula da Silva, Miro, no entanto, negou, de imediato, que tivesse sido a fonte das informações publicadas pelo jornal. Em decorrência disso, a representação junto à Corregedoria perdeu efeito. ''A representação ficou sem objeto a partir do momento em que o suposto denunciante negou o teor da reportagem. O jeito foi dar um parecer pelo arquivamento, antes mesmo de iniciar a investigação'', afirmou Piauhylino. O parecer pelo arquivamento foi emitido pelo deputado no dia 6 de outubro.
Segundo ele, não haveria maneira de realizar investigações, a partir do momento em que Miro recuava na denúncia. ''A matéria toda perdeu valor'', disse. Piauhylino disse que tomou essa decisão sozinho e assegurou que não foi pressionado a fazê-lo por nenhum dos membros do governo.
Paralelamente à representação ao corregedor, João Paulo também enviou ofício ao então procurador da Câmara, deputado Luiz Antônio Fleury Filho (PTB-SP), pedindo providências que resguardassem a imagem da Casa. A justificativa era de que a reportagem deixava uma sombra sobre todos os deputados, que poderiam ser acusados de receber mesada do governo.
O deputado Fleury Filho acabou movendo ação contra o ''JB'' na Justiça, e o jornal foi obrigado a conceder um direito de resposta, duas semanas após a publicação da reportagem.
Miro Teixeira disse ontem acreditar que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva não sabia do pagamento. ''Eu não tenho dúvida que o presidente não tomou conhecimento disso'', afirmou. Teixeira confirmou, no entanto, que recebeu Jefferson em seu gabinete no ministério e ouviu as denúncias de pagamento de mesada aos parlamentares. ''Quando ele me relatou isso, eu disse 'vamos ao presidente da República agora. Isso é muito grave''', disse. ''Mas ele não quis ir. Não dava para eu ir sozinho e dizer que eu tinha ouvido dizer que havia um esquema de mesada'', argumentou.


