Foram pouco mais de oito meses de legislatura em uma Câmara de Vereadores de Londrina renovada em cerca de 70%, na eleição de outubro, e empossada com discursos de renovação e citações religiosas em nada menos de 14 dos 19 eleitos - muitos atribuíram a vaga em plenário ''à vontade divina''. Mesclada a essa suposta 'engendração superior', outra unanimidade: promessas de ''moralização'' foram proferidas à Casa que, naquele dia, estava cheia de familiares, amigos e futuros assessores dos empossados, após uma composição do Legislativo marcada por prisões, cassação, renúncia e mais de uma dezena de ações e processos de corrupção que ainda tramitam na Justiça.
Passada a fase da discurseira do début, a constatação bastante terrena, agora, é a de que a renovação de nomes não levou à renovação de costumes, pelo contrário: vícios antigos parecem ter se mantidos firmes e fortes, mesmo na nova composiçao plenária. Pelo menos essa é a opinião de dois analistas políticos ouvidos pela FOLHA.
A reportagem consultou o professor de Ética e Filosofia Política Clodomiro Bannwart, da Universidade Estadual de Londrina (UEL), e o sociólogo Marco Rossi, da Faculdade Pitágoras. Em foco, uma Câmara renovada, mas sobre a qual, em tão pouco tempo de trabalho, já pesam acusações de improbidade administrativa e corrupção passiva, um afastamento imposto pela Justiça de primeiro grau, mas revertido pelo Tribunal de Justiça do Paraná (TJ-PR), e, na última quinta, um parlamentar expulso de seu próprio partido por infidelidade partidária - no caso, Rodrigo Gouvêa (PRP), alvo das ações de improbidade administrativa e de corrupção passiva, impetradas desde o final de setembro pelo Ministério Público (MP), diante da acusação de que teria cobrado vantagem de indevida do empresário Maurício Costa (e tentado cooptar outros vereadore para tal) para aprovação do projeto ''Minha Casa, Minha Vida'', do Executivo, no mês de junho.
A outra ação de improbidade é respondida por Paulo Arildo (PSDB) que, acusado pelo MP de se apropriar indebitamente de parte dos salários de ex-assessores na legislatura passada, chegou a ser afastado liminarmente, mas voltou graças ao TJ. Tanto o tucano - que escapou de expulsão no PSDB, onde foi só advertido - quanto Gouvêa negam as acusações.
Essa semana, porém, o que seria um mal súbido de Arildo em plenário (desmaio gerado, segundo médicos, por uma forte crise de ansiedade) despertou a opinião pública para outro desconforto - este, ao que parece, por bem mais que um único vereador: o acesso de jornalistas ao plenário e a forma com que vereadores são abordados ou têm suas ações veiculadas na mídia. Um pacote de ''medidas de controle interno'' estaria em curso; paralelo ou não a isso, pelo menos três parlamentares, desde janeiro - Sandra Graça (PP), Jairo Tamura (PSB) e Jacks Dias (PT) -, já manifestaram a intenção de que as sessões, hoje vespertinas e acompanhadas por toda sorte de veículos, sejam realizadas à noite.
Para o sociólogo Marco Rossi, a renovação no pleito de outubro foi uma resposta à crise de 2008. E ponto final. ''Diante dos fatos, o que me leva a crer é que a mudança foi mesmo só de nomes, mas nenhuma sob o ponto de vista partidário. Agora, começam a pipocar novas situações de irregularidades, e vejo que não temos em Londrina uma base partidária forte aos nomes que assuniram'', disse Rossi, que faz uma ressalva: ''Mas nada acontece do dia para a noite - a cultura que foi sendo criada aqui é a da política que tornou a Câmara um verdadeiro balcão de negócios, e essa denúncia específica contra o Rodrigo Gouvêa é a manifestação de que tal cultura não foi extinta com a possível renovação, cuja ideia começa a desmoronar''.
Na opinião do sociólogo, para quem há tentativa de restrição às ações da imprensa, ''esse é mais um sintoma'' de que algo não vai bem na engrenagem política do Legislativo local. ''A política pressupõe transparência dos processos que levam às decisões. Quando parlamentares se reúnem para criar meios de restrição, incentivam a censura política para legitimar os interesses deles - e quando você aceita representar uma parcela da população ou a comunidade, a única coisa que é sua é sua vida particular.''
Já o filófoso Clodomiro Bannwart, para quem a renovação também foi uma espécie de resposta imediata do eleitor aos escândalos recentes. ''A impressão é que a classe política se aproveita de que a sociedade civil está apagada - e como o lastro da ética é a sociedade civil, e esta estando apagada, a ética vai girar em falso'', pondera.
Bannwart define que a falta de mecanismos de fiscalização por parte do cidadão beneficia o autofavorecimento da própria classe política, a qual, considera o analista, se aproveita deese tipo de ausência. ''Porque o agente político sabe que nada vai acontecer, e como não há uma punibilidade nem mesmo mecanismos institucionais para tal, isso só se corrobora. Mesmo na Câmara de Londrina: a comissão de ética e a corregedoria já disseram que 'faltam provas' para punir o Rodrigo Gouvêa, assim como já ocorreu no Senado... Ou seja, são mecanismos punitivos do Legislativo ainda inoperantes, corporativistas'', apontou.

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