Brasília - O plenário da Câmara dos Deputados cassou no início da madrugada de hoje o mandato do deputado José Dirceu (PT-SP), ex-ministro da Casa Civil e um dos principais responsáveis pela campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2002. Foram 293 votos a favor da cassação, 192 contra, oito abstenções, um branco e um nulo.
Após o fracasso de sua última manobra na Justiça, José Dirceu, 59 anos, enfrentou na noite de ontem o plenário da Câmara dos Deputados, etapa final para o desfecho do turbulento processo de cassação do seu mandato por acusação de chefiar o esquema do ''mensalão''. Dirceu ficará inelegível até janeiro de 2015. O parecer do Conselho de Ética, assinado pelo deputado Júlio Delgado (PSB-MG), necessitava do aval de pelo menos 257 dos 513 deputados. A votação foi manual e secreta (em cédulas).
Dirceu chegou à Câmara às 18h45, acompanhado de seu advogado José Luiz Oliveira Lima. Seguiu para a liderança do PT à espera do chamado do presidente da Casa, Aldo Rebelo (PC do B-SP). ''Minha vida foi devassada, agora espero um julgamento justo dos deputados'', disse.
Em seu discurso de defesa, José Dirceu disse que nunca quis fugir do julgamento pelos colegas deputados. Dirceu disse que recorreu à Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) e ao Supremo Tribunal Federal (STF) para defender os direitos, fazendo nada mais do que a obrigação. Ele insistiu que não há provas contra ele. ''Eu não quebrei o decoro parlamentar'', afirmou, adiantando que, independentemente do resultado do julgamento, continuará a lutar pelos direitos, defendendo-se. ''Não quero misericórdia, não quero clemência, quero justiça'', afirmou, sendo aplaudido pelos deputados no plenário.
Dirceu é o segundo parlamentar cassado na esteira da crise política. Antes dele, apenas Roberto Jefferson (PTB-RJ), autor das denúncias do ''mensalão'', perdeu o mandato. O líder do PL na Casa, Sandro Mabel (GO), foi absolvido. Outros quatro deputados renunciaram Valdemar Costa Neto (PL-SP), Carlos Rodrigues (PL-RJ), José Borba (PMDB-PR) e Paulo Rocha (PT-PA) e 12 enfrentam processo de cassação. O próximo a ir ao plenário será Romeu Queiroz (PTB-MG), provavelmente na quarta-feira que vem.
Marcado por sucessivas decisões do STF (Supremo Tribunal Federal), o processo contra Dirceu chegou ao final após 112 dias de sua abertura no Conselho de Ética. Nesse período, foi prorrogado por mais 45 dias além dos 90 previstos para que não expirasse sem uma resolução.
O auge do imbróglio jurídico ocorreu quando o STF determinou a anulação da votação do parecer contra o petista no conselho, alegando que o relator não poderia ter tornado público dados sigilosos da CPI dos Correios. Refeito, o parecer passou novamente pelo conselho, mas foi sucessivamente contestado pelos advogados de Dirceu na CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) e no STF.
O lance final ocorreu na tarde de ontem, quando o STF determinou a retirada de trechos do parecer que citavam o depoimento da presidente do Banco Rural, Kátia Rabello, mas não freou a votação na Câmara (leia nesta página). Após o anúncio da resolução do STF, o advogado de Dirceu tentou ainda a última cartada, uma petição a Aldo defendendo mais um adiamento para ter acesso à nova versão do relatório, mas não foi atendido.
Ex-superministro do governo Lula, Dirceu deixou a Casa Civil no dia 16 de junho, auge da crise política, dois dias depois do primeiro depoimento de Roberto Jefferson, no qual disse para o petista sair ''rápido'' do cargo para não fazer de Lula ''um réu''.
Líder estudantil exilado durante a ditadura, o ministro participou da fundação do PT e presidiu o partido por sete anos. À frente do PT, comandou a campanha que elegeu o presidente Lula e foi o principal articulador das alianças com os partidos que hoje sustentam o governo no Congresso.

mockup