A Câmara dos Deputados começou ontem o processo de cassação de mandato do deputado Chicão Brígido (PMDB-AC). O parlamentar será julgado por ter ‘‘alugado’’ seu mandato à suplente Adelaide Neri (PMDB-AC) e por ficar com parte dos salários dos funcionários de seu gabinete, pagos pela Câmara. Mas Chicão será poupado de expulsão do PMDB. ‘‘O partido não tem tradição de sair expulsando parlamentar sem ampla defesa’’, alegou o líder do PMDB, deputado Geddel Vieira Lima (BA).
Em reunião, a Mesa Diretora aprovou a abertura de dois processos: um para cassação de Chicão Brígido por falta de decoro e outro para impedimento à suplente Adelaide Neri de assumir o mandato na vaga do deputado. Apesar da iniciativa rápida do presidente da Câmara, Michel Temer (PMDB-SP), que levou à Mesa a proposta de cassação sumária, os líderes políticos da Casa admitem que o escândalo produzido pela conduta de Chicão Brígido prejudica a imagem da instituição. ‘‘É mais um escândalo para desgastar a imagem do Legislativo’’, lamentou o presidente da CCJ, Henrique Alves (PMDB-RN).
Temer age também para evitar que sua imagem, como presidente da instituição, saia prejudicada. ‘‘O presidente deveria ficar feliz por esse saneamento básico’’, ironizou o vice-lider do PPB, Gerson Peres (PA). ‘‘É bom que se faça uma purificação da Casa’’. Como Chicão Brígido é réu confesso neste novo escândalo, sua cassação é praticamente certa. ‘‘Ele já está cassado’’, afirmou o líder do PFL, Inocêncio Oliveira (PE). ‘‘Os fatos evidenciados foram provados e não há necessidade de sindicância’’, justificou Michel Temer, ao anunciar a decisão da Mesa Diretora.
O presidente da CCJ acertou uma tramitação acelerada do processo, protocolado ontem mesmo. Henrique Alves vai aguardar o prazo de cinco sessões para a defesa escrita de Chicão Brígido, que vence na próxima terça-feira, para colocar o processo em votação na quarta. ‘‘Pensamos num processo rápido porque ele é réu confesso’’, disse Alves.
Em nota enviada do Acre, a suplente Adelaide Neri acusou o líder peemedebista e o presidente da Câmara de terem conhecimento das atitudes de Chicão Brígido. Adelaide, de quem Chicão cobrou metade dos R$ 16 mil pagos durante a convocação extraordinária, quando estava licenciado, alega que o titular da vaga pressionou-a para que dividisse o salário de parlamentar com ele. Na nota, Adelaide diz que se queixou para Michel Temer e Geddel Lima. Temer afirmou que ouviu de Adelaide apenas a reclamação de que não conseguia contratar pessoal próprio para o gabinete. O líder do PMDB disse que recebeu dela apelo para que fosse mantida no mandato.
Desde que assumiu o comando da Câmara, Michel Temer está tendo que administrar uma série de escândalos envolvendo parlamentares. A preocupação de alguns líderes vem da certeza de que os deputados resistem o quanto podem a votar a favor de cassação de colegas. Acusado de extorquir bingueiros, o deputado Marquinho Chedid (PSD-SP) foi absolvido pelo plenário da Câmara. A cúpula da Câmara considera também muito difícil o plenário cassar o ex-líder do PTB Pedrinho Abrão (GO), acusado de tentar desviar verbas públicas.
Tramitando desde maio, os processos contra os deputados envolvidos no escândalo da venda de votos para aprovar a reeleição - o próprio Chicão Brígido e seus colegas do Acre Zila Bezerra e Osmir Lima, os dois do PFL - ainda estão na CCJ. Ninguém aposta que eles serão cassados. ‘‘Não há contraditório para sustentar a condenação deles’’, disse um dos integrantes da CCJ. Os deputados Ronivon Santiago e João Maia, do PFL acreano, safaram-se da cassação ao renunciar ao mandato.

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