Ao anunciar no meio da última semana uma moratória de 90 dias para as dívidas do Estado de Minas Gerais junto à União, o governador Itamar Franco (PMDB), soltou uma verdadeira bomba no mercado financeiro e político, que repercutiu até na queda das Bolsas em várias partes do mundo e provocou a ira do presidente Fernando Henrique Cardoso, dos ministros do segundo governo e de praticamente todos os governadores. FHC não admite o calote mineiro e já na primeira reunião de seu novo ministério, ameaçou Itamar, insinuando que não vai admitir o ‘‘cano’’ do governo mineiro, nem de outro Estado ou de municípios nas dívidas, já roladas e compostas com o Tesouro Nacional: ‘‘A autoridade maior nesse País é o presidente da República, que foi eleito e cumpre a lei’’, disse, acrescentando que ‘‘não admitirᒒ o descumprimento da lei ‘‘por quem quer que seja’’. ‘‘Todos hão de cumprí-la, custe o que custar’’.
Itamar não se pronunciou posteriormente. Fechou-se. No Planalto, agora a preocupação é de chamar bombeiros para tentar apagar o fogo mineiro e ao mesmo tempo tentar acalmar os demais governadores. Estes, preocupados com o buraco de dívidas em que estão atolados, já correm de um lado para outro, avisando que se houver algum tipo de distinção ou privilégio para Minas, eles também querem sua parte. Exemplo disso é a reunião emergencial convocada pela governadora do Maranhão, Roseana Sarney (PFL) para a terça-feira com pelo menos 14 colegas; no final da semana, governadores do Centro-Oeste já trataram de conversar sobre o assunto, preocupados. A bomba de Itamar é preocupante.
Estes assuntos da área econômica sempre foram a principal pedra no caminho de Itamar Franco. Durante seus dois anos e três meses como presidente da República, passaram pelo Ministério da Fazenda nada menos do que seis ministros, inclusive o atual presidente Fernando Henrique Cardoso. Durante todo o governo, Itamar se preocupava com o dia a dia dos brasileiros. Não se importava em confrontar, com frequência e publicamente, com a equipe econômica, ora pelo preço do gás de cozinha, ora por causa das mensalidades escolares, por causa das tarifas telefônicas e de energia elétrica.
Ele reinventou o Fusca e tornou-se o pai dos carros populares. Não esqueceu nem mesmo de institucionalizar os cheques pré-datados, um dos principais instrumentos de compra utilizados pela classe média. Com tudo isso, deixou o governo com mais de 80% de popularidade.
Itamar sempre bateu de frente com os técnicos, principalmente os do Banco Central, que chamava de ‘‘caixa-preta’’ e vivia anunciando que iria desmontá-la. O ex-presidente defendia a necessidade de existir sempre nos governos um contraponto social às áreas econômicas e por isso, procurava nomear para a equipe econômica, pessoas pouco ligadas ao setor. Daí a idéia de ter nomeado o então ministro das Relações Exteriores, sociólogo Fernando Henrique Cardoso. Além dele, passaram pela Fazenda Gustavo Krause, Paulo Haddad (que acumulou com o Ministério do Planejamento quando Krause saiu), Eliseu Resende, seguido por Fernando Henrique, Rubens Ricupero e Ciro Gomes.
A sua preocupação com os problemas da classe média e com a população mais carente era uma obsessão. Chegou a demitir um ministro da Fazenda que autorizou aumento de gasolina na calada da noite. Outra vez, deu um pito público em outro ministro quando soube pela sua empregada de Juiz de Fora, Dona Maria, que o gás de cozinha tinha aumentado e ele não havia sido informado.
Prova disso é que criou tarifas subsidiadas para telefone, luz e tarifa social para carta simples. As frequentes elevações das tarifas de juros dos cheques especiais, muito utilizados pela classe média, também o incomodavam. Diversas vezes ele convocou seu ministro da Fazenda ao Planalto para lhe cobrar explicações sobre isso.
O ex-presidente só parou de dar palpites publicamente na área econômica, quando nomeou Fernando Henrique para a Fazenda e estava sendo montado o Plano Real. Não deixava, no entanto, de reclamar da falta de sensibilidade dos técnicos.
Ele não se preocupava com a globalização ou com a imagem do Brasil no exterior, uma das principais bandeiras de Fernando Henrique. Sua primeira viagem presidencial foi à África, para participar de reuniões do G-15, países em desenvolvimento. Não foi discursar na Organização das Nações Unidas (ONU) como é praxe entre os presidentes brasileiros e nem percorreu países europeus ou asiáticos. Limitou-se a percorrer países da América do Sul.
DramaItamar Franco viveu um drama no início do governo, quando enfrentou a morte de sua mãe, Dona Itália. Enquanto ela estava hospitalizada o presidente Itamar chegou a transferir seu gabinete de trabalho para Juiz de Fora, onde despachava com ministros. Por isso, foi muito criticado, mas não se rendeu, alegando que sua família estava acima de tudo. Outro problema que muito o abateu foi a morte do sobrinho, que considerava como filho, Ariosto, durante uma viagem de reunião de cúpula ibero-americana à Colômbia.
Embora vivesse anunciando que o poder é efêmero e que não via a hora de deixar o Palácio do Planalto - ele riscava com uma caneta dia a dia, no calendário em que possuía em seu gabinete, quanto tempo faltava para o fim do governo, Itamar Franco quis concorrer à convenção do PMDB para se tornar candidato à sucessão de Fernando Henrique. Perdeu a convenção e ficou muito magoado com o presidente. Sentiu-se humilhado com a derrota que lhe foi imposta e com os xingamentos que foi obrigado a ouvir da tropa de choque peemedebista que foi à convenção.

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